Pesca & Lazer

História de pescador


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“Eu era ainda criança quando um presidente da República da década de 40 visitou Bauru utilizando um C47 da FAB (Força Aérea Brasileira) como avião presidencial. Na mesma ocasião, meu pai tinha pegado muitos peixes no rio Batalha e aquele presidente ficou tão entusiasmado que desejou levar todos os nossos peixes, ao que meu pai respondeu:

- Seu avião é muito pequeno, meu presidente.

Então o presidente levou somente o que coube no seu avião e é claro, pagou por eles.

Vieram outros presidentes. Um veio de Viscont, outro presidente que era bigodudo vinha vindo também, mas no caminho resolveu fugir e lá se foi a democracia daquela época.

Depois vieram presidentes militares. O primeiro militar vinha vindo de HS125, mas o avião caiu e ele morreu no caminho e seu sucessor comprou um HC130, mas antes de chegar aqui, ficou doente e morreu no hospital.

Mas foi o militar seguinte quem inaugurou a era dos Boengs e adquiriu dois B737, os mesmos que mais tarde passaram a ser chamados de sucatinhas e que também tinham como apoio, o sucatão. Esses últimos aviões foram utilizados pelos demais presidentes militares e também pelos primeiros presidentes civis da Nova República, inclusive o FHC.

Pelo que eu me lembro, todos os presidentes, militares ou civis anteriores ao FHC, compraram e pagaram por seus peixes, mas esse último levou tudo de nós e não pagou nada...

Mas nós não perdemos por esperar e chegou o atual presidente com seu baita avião e eu como sou apenas um pescador e não entendo de avião, fui logo perguntando:

- O presidente veio de sucatinha ou sucatão?

- Eu não uso sucata. Eu uso uma nave espacial que se chama Aerolula, já tinha visto coisa igual? perguntou ele.

- Não senhor, eu respondi.

- E tem mais. Eu quero todos os seus peixes e pode ficar sossegado que o Aerolula é bem grande e cabe tudo e todos...

- Seu antecessor também levou tudo, não pagou nada e ainda nos chamou de vagabundos, respondi desconfiado.

- Não, você é um trabalhador, pois está vendendo seu peixe, mesmo depois de aposentado, e como eu sou o presidente dos trabalhadores, eu pagarei pelos meus peixes, pagarei a dívida do meu antecessor e ainda darei um grande aumento salarial para todos os trabalhadores ativos e inativos.

- Negócio fechado, eu respondi.

Mas até hoje ele não pagou a sua conta, nem a conta do seu antecessor e ainda fiquei sabendo pelos jornais que o tal aumento salarial só vai sair para os deputados e eu já estou achando que com o dinheiro dos meus peixes é que ele vai pagar o seu avião.”

Eurico de Oliveira, aposentado, pescador e contador de histórias

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