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Tietê, a redenção do turismo regional

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 9 min

O mesmo rio que serviu de caminho para os bandeirantes buscarem ouro e fortuna por esse Brasil afora, 300 anos depois também será usado como fonte geradora de renda da indústria que mais cresce em todo mundo: a do turismo. As águas do Tietê, distantes de Bauru a pouco mais de 20 quilômetros, serão a redenção para o fomento do turismo da região.

É o que afirma o delegado regional de Turismo do Estado, Renato Senis Cardoso. Para ele, o rio que no passado ofereceu aos desbravadores de sertões o caminho certo para a conquista de rincões desconhecidos também será a via do desenvolvimento das potencialidades turísticas dos municípios que estão no entorno de suas margens.

Cardoso acredita que as águas do Tietê na região vão banhar um novo eldorado, permeado pelo desenvolvimento da indústria turística. Ele já computa no cenário, a médio e longo prazos, a construção de marinas, hotéis, clubes e empreendimentos residenciais que vão transformar o rio no fio condutor do turismo regional dos 39 municípios ligados a Bauru. Confira os principais trechos da entrevista:

Jornal da Cidade - Muito se fala que o turismo será a redenção futura do Brasil. O senhor faz parte deste time de otimistas?

Renato Senis Cardoso - Vejo que o Brasil tem um potencial muito grande, a partir da sua situação atual, comparativamente com outros países. Nós estamos muito aquém com relação a números de turistas a nos visitar. Temos que crescer, no mínimo, dez vezes. A França recebeu em 2003 75 milhões de turistas; a Espanha, 52 milhões; Estados Unidos, 40 milhões. O Brasil, em 2003, recebeu apenas 4 milhões de turistas. É ruim? Não, é ótimo. De 4 milhões, temos que chegar a 50 milhões. Isso representa um grande mercado de trabalho, um grande mercado para investidores, um grande mercado para os jovens que estão cursando faculdades. Isso é factível porque o Brasil é um País riquíssimo de oferta turística, de beleza natural. Enfim, precisamos profissionalizar desde a comunicação até os projetos, os roteiros. Temos que ter um marketing muito bem elaborado para fazermos crescer essa procura pelo Brasil. Para tanto, é importante que tenhamos desde a profissionalização da atividade até a sensibilização da população.

JC - Quais são os projetos do governo para o desenvolvimento do turismo no Estado de São Paulo?

Cardoso - A Secretaria Executiva de Turismo do Estado atua em diversas frentes. A secretaria acabou de firmar um convênio com o Ministério do Turismo para que tenhamos um cadastro rigoroso dos nossos equipamentos. Será através desse cadastramento que teremos recursos do governo para aplicação no setor. Dentre todos os Estados, São Paulo está em segundo lugar no ranking desse levantamento. Só perde para o Rio Grande do Sul. Mas somos muito mais rigorosos em relação a outros Estados. Vamos ter um diagnóstico absolutamente realista da nossa força turística. Esse é o nosso elo com o Ministério do Turismo. Outro passo muito importante é um levantamento rigoroso e detalhado de todos os equipamentos turísticos em todas as cidades do Estado de São Paulo. É o DOT - Diagnóstico de Oferta Turística. Já se tentou em outras oportunidades fazer esse levantamento, talvez não por um caminho muito adequado.

Agora, o caminho, tudo indica, é o correto porque foi firmada uma parceria entre a secretaria com o Sebrae, com a Fapesp e com a Data Center, empresa responsável pelo desenvolvimento de um software que está sendo disponibilizado às universidades. Os alunos do curso de turismo é que estão indo a campo fazer esse levantamento. No computador da faculdade, o aluno imputa os dados levantados na cidade pesquisada. Nós esperamos num prazo de cinco a seis meses termos um cadastramento rigoroso de todos equipamentos desses municípios. De posse disso, vamos partir para projetos profissionais, para roteiros elaborados.

JC - Na opinião do senhor, quais são os principais pontos turísticos da região de Bauru?

Cardoso - Entendo que o mote forte do turismo em nossa região é o rio Tietê. Na nossa região, o Tietê é navegável e poderá se voltar ao turismo. Tínhamos um entrave até recentemente. Era exigido dos investidores que têm seus projetos prontos às margens do Tietê um recuo de 100 metros. Isso caiu para 30 metros. Já temos vários empresários registrando seus projetos, desde marinas até postos de abastecimentos, clubes, empreendimentos residenciais. Vamos ter um avanço muito grande no turismo do rio Tietê, cujas águas atingem 40% das nossas cidades da região. Vamos poder em breve elaborar um roteiro turístico, explorando a potencialidade de cada município. Em Jaú, por exemplo, a indústria calçadista.

Depois temos Ibitinga, com os bordados; Piratininga, com o Clube Águas Quentes; Lins com o hotel e balneário fantásticos. Temos Bauru, com sua potencialidade de turismo científico e de turismo de negócios. Já recebemos mais de 100 mil turistas por ano. Eles chegam acompanhados. Portanto, temos que desenvolver em Bauru o turismo de lazer. O município terá o primeiro centro de implantes do mundo, que será comandado pelo médico e professor sueco Per-Ingvar Branemark. Ao lado desse instituto, está em construção um hotel de porte. Tudo isso é ação e reação. Bauru, definitivamente, é uma cidade voltada ao turismo científico. Temos o Centrinho da USP, as universidades.

O nosso trabalho, com o apoio do Conselho Municipal de Turismo, o Comtur, e com o Convention Bureau, é fazer o marketing adequado. A concepção de turista mudou. Deixou de ser aquele cenário do norte-americano com uma máquina fotográfica na mão e um chapéu colorido. Um vendedor de uma empresa que venha visitar seus clientes na cidade é um turista. À noite, ele vai a um bar tomar chope, vai a uma casa noturna. Ele está deixando seus recursos no município. Temos na região muitos pesqueiros. Para nós, é uma coisa elementar. Mas para quem vem de São Paulo, passar um dia num pesqueiro é coisa de outro mundo.

JC - O projeto, pelo visto, é trabalhar o conjunto da região e não pontos isolados.

Cardoso - Não se pode olhar, quando o assunto é turismo, para o próprio umbigo. Em qualquer lugar do mundo você tem uma van na porta do hotel que o levará a um equipamento turístico distante 30 minutos, uma hora. Não se tem atração turística na porta do hotel. A defesa que tenho feito é que as empresas de transporte turístico entrem nesse projeto de marketing, as agências de turismo receptivo. Temos que fazer o elo com Jaú e todos os municípios do entorno. A região, naturalmente atendendo ao novo conceito de desenvolvimento, não está restrita ao turismo. A região administrativa de Bauru é formada por 39 municípios, sendo três deles cidades pólos: Bauru, Lins e Jaú. Cada uma delas sediará um Conselho Regional de Desenvolvimento, que estudará a potencialidade de cada cidade. Vamos trabalhar o conjunto. O turismo vai entrar como uma grande força. Até recentemente, o turismo ficava lá na ponta, sem significado na importância dos itens de desenvolvimento econômico. Hoje, já se fala em economia primária, que é a agricultura; a secundária, que é a indústria; a terciária, que é o comércio; e o turismo como item importante do desenvolvimento econômico. Comparativamente com outros setores, o turismo gera dez vezes mais empregos diretos e indiretos. O governador Geraldo Alckmin tem enfatizado muito o desenvolvimento do turismo no Estado como fonte de geração de empregos e renda.

JC - O cadastramento dos equipamentos que está sendo realizado pelo Ministério do Turismo oferece a redução da alíquota de impostos para o setor, que cai de 7,5% para 3,7%. Como o senhor avalia esse incentivo?

Cardoso - Essa campanha do cadastramento dos equipamentos começou em outubro e está indo bem. O presidente Lula acaba de assinar uma portaria, publicada no dia 9 de março, que garante ao setor a redução de 7,5% para 3,7% da alíquota do Cofins para a empresa e profissional que se cadastrar, retroativo a um ano. Quem estava regularmente cadastrado no Ministério do Turismo já goza desse incentivo fiscal.

JC - Na avaliação do senhor, o futuro aeroporto de Bauru, em construção na rodovia Bauru/Iacanga, contribuirá para o incremento do turismo regional?

Cardoso - Acho que esse novo aeroporto vai impactar em todos os setores. Ele definirá a região de Bauru como uma região produtora, especialmente no campo agrícola. Imagino que Bauru e região deverão voltar suas atenções ao paisagismo, floricultura e fruticultura. O que acontece em Campinas, através da Holambra, demonstra essa previsão. Hoje você exporta flores e plantas para Europa no tempo de um dia. A região de Bauru não é composta por grandes propriedades rurais. Cerca de 80% da área rural do nosso município é formada por pequenas propriedades rurais, de cinco a dez alqueires. E essas propriedades precisam se pagar. Acredito que a condução de uma estratégia nesse sentido, poderá levar nossa região a um perfil único de produtividade. Se partirmos para o paisagismo ou para a fruticultura nobre, sem dúvida será uma atração turística bárbara. Daí poderemos partir para feiras e exposições. Além disso, se pensarmos em turismo emissivo ou pró-ativo, poderemos sair do novo aeroporto com vôos charters para qualquer parte do mundo. Isso não ocorre hoje porque a pista do atual aeroporto não permite. Temos que ir a Marília ou a Assis para o embarque. Com o futuro aeroporto, vamos proporcionar boas condições às nossas agências e operadoras de turismo.

JC - A Secretaria Executiva de Turismo faz esse trabalho de fomento ao setor integrada com o Conselho Municipal de Turismo e com o Convention Bureau?

Cardoso - A Delegacia Regional de Turismo tem por função fazer o marketing regional de turismo. Olha para todas as cidades da região. Estimula seus prefeitos e comunidades a constituirem seus conselhos municipais de turismo. A partir do momento em que tivermos os 39 conselhos funcionando na região, vamos fazer o elo. O Conselho Municipal de Turismo de Bauru, constituído há quatro anos, já está numa fase muito avançada de estudos. São avaliados os nossos serviços de táxi, de coleta de lixo, de sinalização no trânsito. Enfim, o conselho delega a seus vários representantes a buscas para essas respostas. Tenho que destacar que o nosso conselho tem um apoio muito forte da faculdade de turismo da Universidade do Sagrado Coração, a USC. O próprio conselho chegou à conclusão de que deveria ficar com essa missão de estudos e planejamento. Já a atividade turística privada tem sua própria entidade, que é o Bauru Convention Bureau, que agrega em seu corpo associativo apenas entidades particulares, profissionais de turismo e associações. Tem a tarefa de desenvolver o turismo do ponto de vista profissional. Caberá a ele, por exemplo, a construção do Posto de Informações Turísticas, o PIT. O Bauru Convention Bureau é de negócios. Envolve a iniciativa privada e o órgão público não participa. Havia uma dificuldade de comunicação entre as empresas do setor. E a criação do bureau foi uma forma inteligente encontrada pelo Conselho Municipal de Turismo para integrar hotéis, restaurantes e casas noturnas.

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