Bairros

Convivência com pragas é ‘pulverizada’

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

É difícil circular por todas as regiões da cidade e não encontrar casos de moradores aflitos com uma situação criada por matagais em áreas desocupadas, seja de proprietários de terrenos que pouco se importam com sua manutenção, seja com o poder público, que pouco faz além de cobrar os donos de lotes para que os mantenham limpos e cercados.

A própria prefeitura admite que mais da metade dos 63 mil lotes vagos da cidade está em situação irregular com relação ao crescimento de mato, segundo estimativa do diretor do Departamento de Uso e Ocupação do Solo da Secretaria de Planejamento (Seplan), Roberto Rossi.

Ele também vê o problema “pulverizado” por todas as regiões da cidade, apesar de admitir que a situação é mais crítica nas regiões periféricas, onde é mais marcante a atuação de grandes proprietários, que praticam a especulação imobiliária através da posse de um grande número de lotes.

Mas engana-se que somente nos bairros distantes a situação é mais complicada. No Jardim América, na Zona Sul da cidade, a reportagem deparou-se com uma grande quantidade de terrenos tomados pelo mato, que muitas vezes avança sobre as calçadas.

A dona de casa Ana Maria Gobbi Grossi, 52 anos, considera-se uma pioneira na ocupação de uma região na parte baixa do Jardim América, onde reside há cerca de cinco anos. Neste tempo todo, vem tendo de conviver com os problemas causados por uma verdadeira “selva” que se ergue ao lado do muro de sua casa.

O incômodo, no entanto, não é um privilégio exclusivo da família Grossi, já que a região, caracterizada por edificações de padrão de classe média, é pontuada por diversos terrenos na mesma situação do que está ao lado de sua casa. Grossi conta que já fez várias reclamações à prefeitura, mas que já desistiu do procedimento há algum tempo. “Acho que não adianta. quando muito, vem alguém e põe fogo no mato”, diz, em referência a um procedimento que também traz inconvenientes, como o perigo de incêndio e a sujeira causada pela fuligem.

Cansada de reclamar, a família Grossi resolveu adotar algumas medidas para atenuar os problemas causados pelo mato alto, como pagar um trabalhador autônomo para abrir uma espécie de “canaleta” - na verdade, um aceiro - entre o matagal o muro de sua casa. “Se não fizéssemos isso, o mato subiria no muro e invadiria nossa casa”, conta. Além disso, outras medidas foram adotadas, com a construção de mecanismos na casa para dificultar o acesso de pragas, como canos de água inclinados e protegidos por telas.

Mas a grande preocupação da dona de casa continua sendo com a constante ameaça representada pela proliferação de insetos e pequenos animais. Segundo ela, são ratos, baratas e carrapatos em grande quantidade. O principal receio nos últimos tempos, revela Grossi, são os mosquitos e pernilongos. “A cidade vive problemas com a leishmaniose e a dengue e não sabemos se estes mosquitos estão infectados ou não”, diz.

Até gambá

Situação não menos aflitiva vive a família da manicure Luciana Francischini, 30 anos, moradora no bairro Chácara das Flores, nas região da Vila Cardia. Há dois anos no local, a manicure diz lembrar-se que o terreno ao lado de sua casa foi limpo apenas uma vez neste período. “E ainda assim foi um serviço mal feito”, diz.

Depois disso, conta, as constantes reclamações esbarraram na informação de que os herdeiros da propriedade - supostamente em processo de inventário - não se preocupariam mais com sua limpeza até o desfecho do processo. “Já conversei com vizinhos para buscar uma solução, mas não dá para tirar dinheiro do próprio bolso para limpar um terreno que não é meu”, reclama.

Assim como no Jardim América, o matagal na Vila Cardia trouxe para os moradores da região uma série de pragas urbanas, como baratas e pernilongos. A diferença é que no quintal da manicure apareceram animais de porte e periculosidade maiores que os representados por insetos.

Segundo Francischini, mãe de dois filhos, de 3 e 9 anos, a família tem se deparado com aranhas, escorpiões e lacraias, todos venenosos, além de grandes ratazanas. Ela chega a desconfiar que um de seus filhos ficou doente por causa das inúmeras pragas com as quais a família é obrigada a conviver. Além disso, continua, o cachorro de estimação também apresenta um problema crônico de saúde que o veterinário não consegue identificar - exames já descartaram a possibilidade de leishmaniose, segundo Francischini.

A manicure conta que, em função destas pragas, precisou queimar em uma grande fogueira em frente à sua casa um armário de madeira, que acabou inutilizado pela urina dos roedores, e uma secadora de roupas, que teve seus componentes e fiação elétrica completamente roídos pelos ratos.

Mas o ápice da convivência com uma fauna inusitada para um ambiente residencial aconteceu quando um pequeno gambá, vindo do matagal, resolveu abrigar-se no quintal da família Francischini. “Cuidamos dele por alguns dias, mas avisamos o Ibama e o Corpo de Bombeiros logo foi buscá-lo”, conta.

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