JC Criança

Roberto Ramos dá um "show" na Feira


| Tempo de leitura: 4 min

O pedagogo Roberto Carlos Ramos, 39 anos, que ficou conhecido pela televisão como o menino que fugiu da Febem, foi adotado por uma mãe francesa e depois, formado em pedagogia, adotou 13 crianças. Ele deu uma palestra no Teatro Municipal “Celina Lourdes Alves Neves” e encantou os educadores, que lotaram os 500 lugares do espaço. Com sua alegria de viver, Roberto Carlos Ramos deu uma entrevista coletiva para os repórteres mirins do JC Criança e contou um pouquinho de sua vida para a turminha.

Repórteres mirins do JC Criança: Você faz outra coisa além de escrever livros? Roberto Carlos Ramos: Eu conto histórias.

JCC: Com quantos anos você adotou essas 13 crianças de rua? Ramos: Quando eu tinha 21 anos adotei essas crianças.

JCC: Por que você resolveu adotar essas crianças? Ramos: Decidi adotar essas crianças para dar melhores condições de vida para elas.

JCC: De onde elas são? Ramos: São crianças da Febem de Belo Horizonte, Minas Gerais.

JCC: Desde quantos anos você escreve livros? Ramos: Meu primeiro livro foi escrito quando eu tinha 27 anos.

JCC: Quem te incentivou a ler e a escrever livros? Ramos: A francesa (sua mãe adotiva) que me incentivou, pois ela contou que a leitura é uma coisa legal.

JCC: Sua vida mudou quando você formou-se em pedagogia? Ramos: As pessoas passaram a me respeitar mais, e não a só me tratar como menino de rua.

JCC: A partir de quando você se formou, como está sendo sua vida? Ramos: Muito legal, as pessoas têm gostado muito de meu trabalho, inclusive as crianças.

JCC: Quantos livros você já escreveu? Ramos: Ao todo, cinco.

JCC: Você procura passar um pouco de sua história em seus livros? Ramos: Sim, cada história tem um pouco de mim.

JCC: O que você procura passar os leitores de seus livros? Ramos: A verdade, a eterna briga entre o bem e o mal. E o bem sempre vence.

JCC: Você acha que o seu livro ensina as crianças? Ramos: Se não ensina, faz as crianças felizes.

JCC: Você se considera uma pessoa brasileira? Ramos: Eu me considero muito brasileiro, aliás, eu sou brasileiro e não desisto nunca. Minha raiz é no Brasil, não é porque fui morar em outro país que vou esquecer meu país. Eu me considero sempre brasileiro.

JCC: Você passou por muitas necessidades? Ramos: Sim. Quando eu era garoto de rua, não tinha ninguém para me levar para casa, para me adotar. Tentei fugir da Febem várias vezes.

JCC: Você, que é um homem formado em pedagogia e em outras coisas, acha que não só ler e aprender desenvolve a mente dos jovens? Ramos: Sim, pois os jovens, apesar de estarem em uma era diferente, devem estimular e desenvolver a mente para alcançar seus objetivos.

JCC: Como você ficou entre os melhores contadores de história do mundo? Ramos: Eu fui convidado, em 2001, para um encontro de contadores de história do mundo inteiro em São Francisco, na Califórnia (EUA), aí fiquei em 10º lugar.

Palestra

Os repórteres mirins também acompanharam parte da palestra “A Pedagogia do Amor”, direcionada a educadores, no Teatro Municipal, com o pedagogo Roberto Carlos Ramos. Ele contou que teve nove irmãos, nasceu e viveu na favela por muito tempo e só foi conhecer um livro quanto tinha 6 anos e aos 13 ainda era analfabeto.

“Eu era um grande sonhador, na infância, mas também tive dislexia. Eu era hiper-ativo. Depois, eu inventava doenças para chamar a atenção das pessoas”, contou Roberto Ramos. Ele também disse que sofreu muito racismo na Febem. “Eu fui para lá quando tinha 6 anos.” Sua mãe disse que iria levá-lo para a escola e o deixou na Febem. “Ela disse que lá era um castelo, com muros e algodão-doce. Quando eu cheguei, fui recebido por uma assistente social, quando vi, minha mãe estava indo embora. A primeira vez que fugi tinha só 8 anos.”

Ele contou que lá a vida não era fácil. “A gente acordava às 5h30, os meninos faziam xixi no colchão, aí a gente colocava os colchões no sol.” E quando ele precisava de dinheiro, contou, inventava que o pai ou a mãe estava doente, sem uma perna ou um braço.

Um dia, uma francesa chegou na Febem, Roberto Carlos conta que buscou os olhos dela e ela sorriu. “Ela falou comigo como nunca alguém tinha falado. Depois de três dias ela voltou e conseguiu me encontrar. Ela é uma pessoa maravilhosa. Ela correu, fez de tudo. Não me bateu, nem quando eu arrotei, e me adotou.”

Roberto conta que ela lhe ensinou a olhar com os olhos. “Um dia, ela falou: ‘Roberto, você passou o ano inteiro para aprender a olhar com os olhos’. E eu olhei para ela, que tinha os olhos vermelhos e um nó na garganta, como eu estava. E ela disse: ‘Ô menino, o que eu faço para você aprender que eu te amo!’. Eu nunca mais tinha chorado, desde os 7 anos. Aquele dia, eu chorei.” Depois ele foi morar na França e só voltou quando tinha 20 anos. A palestra de Roberto Carlos Ribeiro foi muito elogiada pelos educadores.

Repórteres mirins: Felipe Itiro Motobayashi, Fernanda Dayana Rodrigues Santos, Monique Megumi Motobayashi, Núbia Alves Grandine, Daniel Ferreira Seles, Mayara Gonçalves Ribeiro, Caio Henrique Ribeiro, Vinicius Pereira

Comentários

Comentários