Articulistas

A república do Velho Lima


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No delicioso O Conto da Vida Burocrática, Artur Azevedo, escritor maranhense, ele mesmo um burocrata durante 30 anos, retrata o velho Lima, empregado de uma repartição pública, caindo enfermo em 14 de novembro de 1889, véspera da proclamação da República. Restabelecido, voltando ao trabalho oito dias depois, o funcionário, que não lia jornais, surpreendeu-se ao ser chamado de cidadão (em vez de ilustre, termo da época) e ver coisas inimagináveis: vândalo arrancando coroas imperiais de prédios públicos, o amigo comendador que perdera a comenda, uma nova bandeira, serventes mal trajados cheios de orgulho e, para coroar, a retirada do retrato do imperador Pedro II da parede da repartição. “Por quê?” indagou. “Ora, cidadão, que fazia ali a figura do Pedro Banana?”. Sentando-se, o perturbado Lima pensou com tristeza: “Não dou três anos para que isto seja República.”

Passados 116 anos, a República profetizada pelo velho burocrata é um projeto ainda tosco. O Brasil rural da Primeira República, que dominou a vida social e política até 1930, cedeu lugar ao Brasil urbano. O populismo, que ganhou força entre 1930 e 1937, na esteira da mobilização nacional - com a multiplicação de sindicatos, associações classistas, partidos e movimentos de massas - e amparado na legislação social criada pelo “pai dos pobres”, Getulio Vargas, é pálida lembrança. O que se vê hoje é um ensaio de democracia participativa, no seio da qual uma miríade de núcleos agita a alma nacional, fazendo pressão e exigências. Demonstração recente do ânimo participativo foi a mobilização social contra a famigerada Medida Provisória 232, que sufocava setores de serviços. Quer dizer que a República conseguiu alcançar a meta para a qual foi concebida, a de instaurar o governo dos cidadãos, enterrando privilégios da monarquia? Em termos. Vícios do passado continuam fortes.

Ao adotar o federalismo, a República reforçou lealdades estaduais, em detrimento do civismo nacional. Em conseqüência, elites locais se fortaleceram. Os coronéis, depois de perderem o posto mais alto na hierarquia militar da Guarda Nacional, transferiram o poder para a esfera política. Se antigamente o apoio ao governo redundava em indicação de delegado de polícia, juiz, agente dos correios, coletor de impostos, agora, o apoio aos governos - federal, estadual e municipal - implica nomeação para ministérios, autarquias e repartições.

Por que o presidente da República, em vez de reduzir o número de ministérios de 35 para 20 ou até menos, e impor a racionalização de estruturas de gestão, agregando eficácia, qualidade e probidade, mantém a mesma quantidade de ministros, aumentando a taxa de desarticulação política e incentivando a improvisação administrativa? Porque coloca o projeto da reeleição em primeiro lugar. O horizonte de 2006 inspira as decisões de Lula. Por isso, a reforma ministerial está inconclusa. A despudorada franqueza de Severino Cavalcanti que, à semelhança do conterrâneo Lula, faz curvas nas linhas do alfabeto, dita a pauta política, escancara a fragilidade do Poder Executivo e induz o presidente da República a assumir a articulação política, fazendo-o abrir conversações institucionais com partidos.

O fato é que a pressão social assume posição destacada no cenário. Medidas impopulares acabarão puxando para cima a taxa de corrosão do presidente da República, que acaba de colher a mais veemente crítica de um religioso, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid, para quem ele “não é católico, é caótico”. Vivo fosse, atordoado por ver o presidente recebendo esse mimo de um alto dirigente da Igreja Católica, o velho Lima, meio que assustado, seria mais piedoso, principalmente depois de ler uma das últimas declarações do presidente, a de que a reforma universitária patrocinada pelo governo permitirá ao Brasil, neste século, “exportar inteligência, conhecimento e valor agregado”. Produziria o solilóquio que fez ao ouvir o amigo comendador tentando imaginar como Pedro II seria recebido, em Lisboa, por um ministro brasileiro: “Não diz coisa com coisa, coitado”. (O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político)

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