Cultura

História verde e rosa

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

A história do samba carioca vem dos morros, das comunidades e dos blocos de carnavais que se transformaram nas responsáveis por um dos mais grandiosos espetáculos do planeta, repetidos anualmente com cores, enredos e inovações diferentes. E é esse o universo que uma coleção editada pela Monte Castelo Idéias pretende contar. Para abrir a Sapucaí, o primeiro livro não poderia retratar outra escola senão a Estação Primeira de Mangueira.

“Eu conheço esse bumbo / Esse bumbo é da Mangueira”, já cantava Jorge Ben, antes de ser Ben Jor, sobre uma das escolas de samba mais populares do País. O livro “Mangueira, estação primeira do samba” percorre o período de aproximadamente 80 anos, desde o surgimento do Bloco dos Arengueiros, com moradores da Mangueira, até a consagração dos nomes que hoje formam a Velha Guarda da escola.

Editor do primeiro livro, o jornalista José de la Peña Neto, explica que a idéia da coleção surgiu da notoriedade que recebem as histórias dos desfiles e das personalidades que participam do Carnaval, que acabam deixando a comunidade em segundo plano. “Resolvemos publicar a coleção com as histórias das escolas e da gente das escolas, das comunidades”, comenta.

De acordo com o jornalista, o conceito buscado na coleção é que cada volume seja um grande livro-reportagem sobre cada agremiação. “Para o primeiro livro, colhemos depoimentos de 18 pessoas que participaram do crescimento da Mangueira. A idéia, com os próximos livros, é até mesmo abrir o mercado para os jornalistas cariocas escreverem sobre as escolas”, diz.

Atualmente, o volume sobre a Acadêmicos do Salgueiro está sendo produzido. Os próximos são sobre a Império Serrano, Portela, Mocidade, Vila Isabel, Imperatriz Leopoldinense, Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Caprichosos de Pilares e Em Cima da Hora, bloco formado por abnegados sambistas cariocas.

No morro das mangueiras

Segundo o livro, a Mangueira foi fundada em 29 de abril de 1928, como uma evolução do Bloco dos Arengueiros, tão bons de batuque como de confusão. Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, percebeu a necessidade de mudança para a organização da escola e agrupou, na época, todos os blocos das comunidades entre a Quinta da Boa Vista e a Estrada de Ferro Central do Brasil. No morro, já despontavam os primeiros barracos com teto de zinco entre as mangueiras grandiosas.

O nome e as cores da escola foram escolhidos por Cartola. Em depoimento gravado pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro em 1968, e recuperado pela publicação, ele conta que o nome surgiu de um samba com o qual o Arengueiros já havia desfilado. “Chega de demanda/ chega/ com esse time temos que ganhar/ somos Estação Primeira/ Salve o morro da Mangueira”.

“Quando fizemos a escola, lembraram o samba e acharam bom o nome porque era a primeira estação que tinha escola de samba”, conta o sambista, falecido em 1980, na gravação.

Anésio de Santos, o Comprido, ex-presidente da ala dos compositores da Mangueira, completa no livro a explicação de onde veio o nome da comunidade. “A primeira estação sempre foi Lauro Miller e a segunda, São Cristóvão. Depois, tinha uma paradinha, não era nem uma estação. Não tinha ponte, nem muro. Tinha muitas mangueiras por ali. ‘Moço, deixa eu descer nas mangueiras, moço deixa eu descer nas mangueiras’, aí ficou Mangueira”, relembra.

Da fundação, o livro percorre os primeiros anos, os primeiros enredos, a formação da célebre Ala dos Compositores até a invasão da classe média nos ensaios e os concursos de rainha e princesa de bateria, criados para angariar fundos. Entre os episódios curiosos, há o que conta a aproximação de Nelson Cavaquinho com a Ala dos Compositores. Segundo o livro, ele sempre se fazia presente nas festas, tomava cachaça, experimentava a feijoada e passava o tempo dedilhando o violão com os integrantes da escola.

Comprido relembra, na publicação, que Cavaquinho se disse envergonhado, um dia, por comer e beber de graça e nunca oferecer nada, e compôs a música “Folhas secas”, que inicia com os versos “Quando piso em folhas secas/ Caídas de uma mangueira/ Penso na minha escola/ E nos poetas da Estação Primeira”.

• Serviço

O livro “Mangueira, estação primeira do samba” está à venda apenas no site www.letrasvirtuais.com.br.

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