Tribuna do Leitor

Globalização e um homen santo


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O papa João Paulo II morreu e com seu martírio final lembrei-me de um verdadeiro homem santo, na melhor acepção do que isso pode significar. O santo do meu altar particular é também da igreja católica, nasceu na Europa, mais precisamente na Espanha, escolhendo nosso país para viver, adotando como divisa os seguintes princípios: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar”. Meu santo continua vivo, trata-se de Dom Pedro María Casaldáliga, bispo até bem pouco tempo da distante São Félix Araguaia, uma prelazia amazônica. Esse esteve sempre ao lado do povo simples, pastor de um povo sem rumo, escolheu defendê-los, não tendo medo pelos riscos de vida enfrentados e as adversidades sofridas.

Lembro-me de João Paulo II já completamente debilitado, mas de forma consciente, consentindo em retirá-lo definitivamente de São Félix, de seu simples casebre, para substitui-lo pelo novo bispo, frei Steiner. Foi mais um duro golpe na Teologia da Libertação, a única igreja que ainda me digno a acreditar e seguir. Quando o cardeal Arns foi aposentado, veio em seu lugar dom Hummes (o nosso ex-papável), com postura bem mais conservadora. Trocam um libertário por um conservador e quando um conservador se aposenta, logo outro conservador é colocado em seu lugar.

É o caso de dom Eugênio Salles, do RJ, que sempre esteve ao lado do poder e em seu lugar foi colocado dom Eusébio Scheid, o mesmo que de uma forma muito grosseira disse que Lula é “caótico e não católico”. Essa linha da igreja afaga o poder, mas o poder dos grandes conglomerados, a tal elite que infelicita esse sofrido país há quinhentos anos. O papa recém-eleito, Ratzinger, todos nós já conhecemos de longa data e por polêmicas passagens, acho que a Igreja continuará tendo mais problemas que soluções daqui para frente. Infelizmente, esse é o caminho que os cardeais escolheram.

Voltando para meu santo Casaldáliga e comparando os seus escritos com o do falecido papa, não penso muito em quem continuar mantendo sob minha cabeceira. No passado, dirigindo-se aos povos pobres dessa nossa América, Casaldáliga disse: “Não é só imoral cobrar a dívida externa, também é imoral pagá-la, porque, fatalmente, significará endividar progressivamente os nossos povos”. Nos dias de exéquias a João Paulo II leio a entrevista de Casaldáliga na última edição da revista Nossa História (abril 2005) e encontro um termo novo para mim: Glocalização. Sua definição para isso: “O desafio do momento seria a glocalização, conjugar a globalização com localização. Uma outra universalidade respeitando as diferenças. Isso é um sonho humano. Acho que, com todas as diferenças, tropeços e guerras que se vive e se viverá ainda, vamos caminhando para isso. (...) Aprenderemos a dialogar, Deus é maior que todas as mediações e todos nós somos uma só humanidade, a grande família humanidade. (...) Não haverá paz no mundo, se não houver paz entre as religiões; e não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. É por aí”.

Não consigo entender algumas posições atuais da Igreja, como possíveis de serem defendidas nos dias atuais, tal o conservadorismo empedernido em questões políticas. A minha igreja, com toda certeza, pensa e age diferente, sendo por isso perseguida, pois clama por um espírito renovador dos costumes. Fico cada vez mais com Casaldáliga, aquele que me desperta, me acalenta e me acolhe, pois pelo que percebo o caldeirão que está prestes a explodir é o da pobreza. Mas afinal, como li na capa de minha revista predileta: E Ele (Jesus Cristo), quem escolheria?

Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2

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