Cultura

Artigo: A velha Sistina e a eleição do novo papa


| Tempo de leitura: 3 min

A Capela Sistina foi construída no século 15 com o objetivo de acolher a assembléia dos cardeais que elegia o papa. Na atualidade, continua tendo a mesma função. Lá foi escolhido o sucessor de João Paulo II, dentre 115 cardeais, de 52 países.

Como a maioria das igrejas, ela possui forma retangular. Suas paredes laterais são decoradas com quadros de Sandro Botticelli, Rafael Sanzio, Perugino, Guirlandello e outros artistas conhecidos da época. Sua cúpula e a parede atrás do altar-mor foram pintadas por Michelangelo Buonarotto. Ele exprimiu a grandeza de seu gênio revolucionário em um turbilhão de cores e contrastes, nessa obra composta por 700 imagens. O teto da capela foi executado respondendo a um capricho de Julio II. O fato de ser antes de tudo um escultor, não familiarizado com as técnicas do afresco, não foi considerado um problema pelo papa.

Na ocasião, o artista estava com 33 anos. Trabalhando sozinho, a pintura avançava devagar. A pergunta “quando estará pronta a minha capela?”, repetida constantemente pelo impaciente Julio II, era respondida por um “quando eu puder”. No Dia de Finados de 1512, Michelangelo mostrou o resultado dos quatro anos da fatigante tarefa: todo o Antigo Testamento retratado em imagens dramáticas de incomparável força e originalidade de concepção. São visões de um esplendor nunca antes imaginado. A recriação gloriosa de Adão com o braço vigoroso estendido para a vida e a luz é considerada o símbolo da Renascença. A descoberta do mundo e do homem são os traços fundamentais desse renascimento.

Todas as figuras pertencem a uma raça de gigantes, confiantes e seguras de si. A grandeza dessa obra de arte é tão avassaladora que, apesar da aversão da Igreja pela representação do nu, ela foi aplaudida. Mesmo despidas, as imagens não perderam a elegante harmonia dos gestos nem a dignidade do porte. Em 1543, o papa Paulo III mandou cobri-las com véus por imposição do Concílio de Trento.

O projeto de Michelangelo foi executado em duas etapas. No teto, “A Criação do Mundo”, realizada entre os anos de 1508 e 1512 e, na parede principal, o “Juízo Final”, pintado nos anos 1534 a 1541. Ambos são considerados clássicos, mas suas características são anti-clássicas ou maneiristas. Esse novo espírito atinge sua maior intensidade no Juízo Final, pois a harmonia espacial se perde no pano de fundo de imagens fantásticas ligadas umas às outras, como em um sonho. Acentuando a atitude pessoal do artista e a quebra de objetividade da Renascença, o maneirismo caminhou em direção ao surrealismo. Entretanto, definições são enganosas. É mais fácil representar um estilo do que descrevê-lo.

A Renascença significou uma disposição de espírito, uma visão nova, uma renovação nas artes, o reflorescimento da erudição e a expansão do mundo além mares. O combustível estava posto. Obras como as de Virgilio, Platão, Aristóteles e outros clássicos inflamou-o, convertendo Roma no centro da civilização ocidental e os papas em herdeiros dos cézares.

Agora, o destino do Vaticano está decidido, pois o conclave que elegeu o papa terminou. Bush declarou-se satisfeito. Joseph Ratzinger é defensor da doutrina ortodoxa da Igreja. O cardeal eleito será aquele que, de acordo com as profecias de Nostradamus, encerrará um ciclo da cristandade iniciando uma nova era. Sem “fé infantil”. Mas o que será para Ratzinger essa fé infantil latino-americana? Com ele o mundo viverá um novo renascimento espiritual? Quais seriam as mudanças preconizadas pelo vidente francês? Se não for agora, quando? Como cantava Doris Day: “Aquilo que for, será.”

A autora, colaboradora de Jú Machado - Escritório de Arte, assina-se com o pseudônimo de Rosa Bertoldi

Comentários

Comentários