Pesca & Lazer

História de pescador: A história se repete


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"Falo sempre para meus filhos: ‘A história não acontece, a história se repete’, tenham cuidado, vejam os exemplos.

Foi assim que, lendo a história de pescador de Joversy Bergamaschi, edição do Jornal da Cidade de 31 de março, lembrei de uma história parecida.

A avó de minha esposa, morava na cidade de Miranda, no Mato Grosso do Sul. Todos os anos, meu sogro, eu e a família passávamos 30 dias de férias no mês de janeiro em Miranda. Pescávamos nos rios, Miranda, Paraguai, Aquidauana e Salobra.

Em uma das vezes, eu fui uns dias antes que meu sogro e fiquei perdido, sozinho. Peguei minha tralha em estado de nova, com vara boa, molinete, várias linhas importadas, anzóis selecionados, comprei cinco iscas vivas de jejum, coloquei no carro e desci margeando o rio Miranda até o hotel.

Daí para baixo, fui à pé até uma curva grande do rio onde tinha uma corredeira que era conhecida como o ninho do dourado. Desci por uma trilha na mata até a barranca do rio. Por azar, ali estava um casal de velhinhos pescando. Pedi desculpas e disse que iria pescar mais para baixo.

O velhinho, de sandálias havaianas, calça surrada, com as barras arregaçadas até na canela, de cócoras, segurava atento uma linhada com a mão na altura da água, parecia um socó espreitando um peixe. O velhinho, levantou lentamente e falou para a mulher: ‘Vamo imbora véia, hoje tá ruim’. O velhinho não tirava os olhos da minha vara com molinete. ‘Ói, o senhor com essa traia vai pegá é muito dorado no canalão. Nóis não tem essa traia boa assim’. Dizendo isso, o velhinho começou enrolar a linhada numa lata velha. Cada dois metros de linhada que saia da água uma emenda, tinha pedaço de linha de toda grossura, anzol enferrujado, encastoado com arame de cerca... Me cortou o coração ver o pobre velhinho tentando pegar um peixe com aquele troço.

Aí, o velhinho falou para a mulher: ‘Pega o peixe véia, vamo imbora’. A velhinha puxou um arame que estava amarrado no tronco de um arbusto na altura da água e, quando vi, brilhou ao sol um dourado de mais ou menos seis quilos. Babei em cima do peixe dourado do velhinho, mas não desanimei, eu com a minha tralha, com cinco jejuns vivos na lata d’água, para cada jejum, um dourado.

As horas foram passando, a tarde caindo, começou escurecer, os pernilongos já estavam me comendo, meu braço já estava grosso de tanto arremessar o jejum que rodava na corredeira abaixo e nada, não peguei nenhum dourado.

Acho que foi castigo, porque, eu, com tantos carretéis de linha e anzóis na minha tralha, não lembrei de dar pelo menos uma linha nova para o pobre velhinho que deixou o lugar para eu pescar. Eu mereço."

Antonio Roldão de Abreu é pescador e contou as histórias “Quem não tem medo da onça pintada?” e “Milagres acontecem na pescaria”.

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