De menino de rua a um dos dez maiores contadores de histórias do mundo, a trajetória do pedagogo mineiro Roberto Carlos Ramos, 39 anos, se tornou nacionalmente conhecida por meio da campanha institucional “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”, promovida pelo governo federal e Associação Brasileira dos Anunciantes, da qual foi um dos protagonistas.
Ramos esteve em Bauru na última semana, ministrando a palestra “A Pedagogia do Amor”, durante a 5.ª Feira do Livro Infantil, realizada no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”. No evento, ele encantou a platéia - formada em sua maioria por educadores, crianças e jovens - ao mostrar como os aspectos emocionais estimulam a educação.
Para isso, Ramos se baseou em sua própria história, que surpreende pela riqueza de detalhes. O pedagogo viveu dos 6 aos 13 anos como interno da Fundação Social para o Bem-Estar do Menor (Febem), de onde fugiu 132 vezes. Chegou a ser considerado “um caso irrecuperável” devido a seu envolvimento com drogas.
Aos 13 anos, porém, Ramos foi adotado pela francesa Marguerit Duvas, que o ensinou a ler e a escrever. Na época, descobriu a vocação para a literatura e, de volta ao Brasil, se formou em pedagogia, fez mestrado em educação e pós-graduação em literatura infantil.
Ramos adotou 13 garotos, todos ex-meninos de rua, e hoje vive em Belo Horizonte, Minas Gerais. Há 15 anos realiza palestras motivacionais. Com mais de cinco livros, entre eles “O contador de histórias”, lançou recentemente a obra “A arte de construir cidadãos”. Em entrevista ao Jornal da Cidade, ele conta um pouco da sua história de vida e incentiva as pessoas a se tornarem cidadãos melhores.
JC - Muitas pessoas choraram durante sua palestra. A que o senhor atribui essa comoção?
Roberto Carlos Ramos - Minha palestra é emotiva porque as pessoas se identificam, em alguma passagem da vida delas, com uma passagem da minha. Por isso o público fica tão tocado e emocionado ao ouvir o que falo. Mas eu gosto de ressaltar sempre: há pessoas que choram e outras que vendem lenços. Eu vim a Bauru para vender lenços, não para fazer ninguém chorar.
JC - O que representou para o senhor protagonizar a campanha “Eu sou brasileiro e não desisto nunca”?
Ramos - Quando eu falo na propaganda: “eu não vou deixar eles me fazerem desistir” é porque as pessoas, em algum momento da minha vida, infância ou adolescência, queriam que eu desistisse. Mas sempre tive isso muito forte: eu não vou deixar eles me fazerem desistir. Quando vi a gravação confesso que chorei porque pensei: graças a Deus eu cheguei, eles não me fizeram desistir.
JC - Como o senhor descobriu a vocação para a literatura?
Ramos -Na verdade, eu já contava histórias desde pequeno, embora não tivesse estímulo dentro de casa. Minha família era muito pobre e o livro no Brasil era muito caro. Mas foi na Europa que convivi com grandes bibliotecas e percebi que aquilo que eu contava no Brasil para os meus colegas, na França era respeitado pelas pessoas. Na Febem, por exemplo, eu era tido como fofoqueiro. Na França, como contador de histórias. A forma como as pessoas definem o ser humano é que vai realmente jogá-lo para cima ou enterrá-lo.
JC - O senhor foi eleito como um dos dez maiores contadores de histórias da atualidade em 2001, em Seattle, Estados Unidos. Como analisa esse prêmio?
Ramos - Acho que o que fez que eu ganhasse esse prêmio foi a vontade de dividir as coisas boas com as pessoas. Elas perceberam isso. A história, muito mais do que abordar a simples literatura, trabalha a emoção das pessoas e faz com que elas se transformem.
JC - De que forma a arte de contar histórias ajuda a estimular a leitura?
Ramos - São várias linhas de contação de histórias, existem a pedagógica, didática, filosófica e terapêutica. A história também serve para trabalhar questões que se identificam com as pessoas. O ser humano é um contador de histórias por excelência. Todas pessoas podem desenvolver a arte de contar histórias, dentro de uma técnica.
JC - Sua palestra tem como tema “A Pedagogia do Amor”. Como essa ferramenta contribui para a educação?
Ramos - São vários os caminhos, mas acho que a pedagogia do amor é um caminho e uma ajuda a mais que o professor pode ter. O professor hoje está muito desanimado e não acredita muito porque nem sempre as políticas públicas beneficiam a educação. Eu tento dar um ânimo, um fôlego novo para esse profissional para que, apesar de toda a situação atual, ele não se esqueça que seu objeto de trabalho são seres humanos. Se o professor trabalhar de forma desanimada, formará pessoas desanimadas.
JC - O senhor viveu dos 6 aos 13 anos como interno da Febem. Como foi essa experiência?
Ramos - O que sou hoje, sem dúvida nenhuma, é o que eu fui no passado. Meu passado é uma lição para nós meditarmos, mas não para reproduzirmos. Às vezes eu o conto dando gargalhadas, porque consegui manter um distanciamento do meu passado. Repito, eu poderia contar minha história de duas maneiras: chorando no palco, dizendo que eu era um menino de Febem, ou contando minha história vendendo lenços, mostrando para as pessoas que não devemos repetir o lado negativo da história, mas sim a parte em que participam pessoas capazes e competentes para fazer alguma coisa.
JC - Como o senhor avalia o funcionamento da Febem?
Ramos - A Febem é uma instituição que já se deu por falida e se mostrou incapaz de fazer alguma coisa para o ser humano. Nós temos um histórico de 40 anos da Febem e até hoje não se fez nada. O que recupera o adolescente não é a instituição, mas as pessoas que estão envolvidas na recuperação. O governo paulista, por exemplo, insiste em trabalhar com duas ou três mil pessoas que foram parar na Febem por falta de dignidade, comida e cooperação. Não é privando disso que se vai resgatar essas pessoas. A idéia é: a família é a causa, mas também a solução de todos os problemas. Se o governo investir mais na família e na escola vai diminuir o número de internos da Febem.
JC - O racismo, tema evidenciado com o caso do jogador Grafite, que recentemente foi ofendido por um zagueiro argentino, foi mencionado em sua palestra. Em comparação aos países do Exterior, como os brasileiros lidam com o preconceito?
Ramos - No Exterior, quando convivemos com o racismo, sabemos que ao entrar em determinados ambientes ou guetos sabemos que somos ou não bem-vindos. Mas a questão lá é racial. No Brasil o racismo é econômico. A partir do momento que a pessoa ganha o primeiro milhão, ela se torna branca para todo mundo. Sinceramente, julgar as pessoas pela questão de cor significa que a pessoa não tem capacidade e abstração nenhuma para coisas mais importantes na vida, que ela não tem perspectiva ou crença no ser humano.
JC - Por que o senhor resolveu adotar 13 garotos?
Ramos - Digamos que eu tivesse tido uma esposa e ela tivesse falecido, só que eu nunca tive esposa, mas vieram meus filhos. Eles vivem em uma casa normal e organizada porque meus filhos são bons naquilo que fazem, são competentes, zelosos e sabem que têm uma postura de referência junto à sociedade em que estão inseridos, no caso Belo Horizonte. Nós recebemos muitas visitas em casa e por isso eles têm um compromisso com os colegas. Por exemplo, um deles, de 10 anos, não sabia nadar, mas agora dá aulas de natação para os colegas do bairro. Ele já se viu capaz de fazer alguma coisa em benefício dos outros.
JC - Como muitos acreditam, seu sucesso é uma exceção?
Ramos - Existem diferenças entre pessoas ordinárias e extraordinárias. A diferença está no extra, aquilo que fazemos a mais do que os outros. Se a pessoa faz um pouco mais do que seu vizinho ou colegas fazem, ela é uma pessoa extraordinária. Essa é a dica que dou para as pessoas. Hoje todo mundo sabe que não se pode jogar papel na rua. O extraordinário não é aquele que não joga, mas o que pega o papel. Ser extraordinário é ir um pouco além do que os outros já foram.
JC - Em sua trajetória o senhor busca mostrar principalmente o lado positivo de sua história de vida. Por quê?
Ramos - Eu poderia contar minha história de duas maneiras: chorando ou vendendo lenços. Eu prefiro contar vendendo lenços e por isso ela fica fantástica. Se analisarmos ao pé da letra, é muito sangue, dor e lástima. Mas eu prefiro guardar isso para mim e dividir is louros para as pessoas.
JC - Qual é o segredo para o aprimoramento pessoal?
Ramos - As pessoas devem procurar ter muita força, fôlego e flexibilidade. Acredito que nós podemos ter um mundo melhor, mas as pessoas têm uma parcela grande para contribuir nisso. Elas têm que fazer sua parte, bem feito, de forma extraordinária.
JC - Quais são seus projetos futuros?
Ramos - Eu quero comprar um ônibus e viajar pelo Brasil com meus 13 filhos, andando e contando histórias.