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Algo errado


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Alguma coisa está errada. Algo está errado com um país quando se acorda e se lê nos jornais os detalhes de uma chacina de 29 pessoas. Algo está errado com um país em que crianças indígenas morrem por causa da fome e, sobretudo, da maior das indecências: a indiferença. Há algo errado com um país que comemora o maior PIB de sua história, uma elevada taxa de crescimento, mas não melhora as condições sociais de seu povo. Que ultrapassa a marca do US$ 100 bilhões em exportações, mas não distribui o resultado da entrada desses dólares aos 70 milhões de brasileiros excluídos.

Alguma coisa está errada quando não se vota uma emenda à Constituição que determina ao Estado a obrigatoriedade de oferecer vagas em creches às nossas crianças. Está muito errada, se considerarmos que essa obrigatoriedade já deveria constar da nossa Constituição desde a sua promulgação. Instituímos um salário mínimo que deveria garantir uma vida digna a todas as famílias, consideramos intocável o direito à propriedade, mas não tratamos do direito das crianças à atenção e ao cuidado desde a primeira infância. E ainda achamos que não há dinheiro.

Há algo muito errado quando os governantes acham que não há dinheiro para as crianças. Um governante que não é capaz de cuidar das suas crianças não merece ser governante. Pode-se argumentar que não há dinheiro para todo o resto. Mas quando um governante diz que não há dinheiro para cuidar de suas crianças, há algo profundamente errado.

Há algo muito errado em nosso país. E tantos erros, somados, terminam se encadeando. A mortalidade por desnutrição das crianças indígenas, a chacina, a pobreza, a crise educacional, todos esses erros vêm da falta de cuidado com a criança na primeira infância.

O Congresso debateu enfaticamente a MP 232, discutindo mudanças no Imposto de Renda. Esse imposto é pago pelos trabalhadores, é verdade, mas o que se discutia beneficiaria principalmente as camadas salariais mais altas. Alguma coisa está muito errada em um país onde não se discute com a mesma veemência a redução da taxa de analfabetismo, o aumento da taxa de escolaridade, e o direito básico à creche. Enquanto esse erro persistir, outras coisas erradas continuarão acontecendo.

O autor, Cristovam Buarque, é senador pelo PT/DF

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