Política

Para Petit, combate foi 'atrocidade'

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

As feridas da Guerrilha do Araguaia ainda estão abertas. O advogado Clóvis Petit, irmão dos guerrilheiros Jaime, Lúcio e Maria Lúcia - mortos em combate -, ainda tem esperanças de encontrar os restos mortais deles e enterrá-los com dignidade. Maria Lúcia, a única que teve a ossada identificada, está sepultada em Bauru, onde sua mãe, Julieta Petit, morou até 2002. “O que o Exército fez no Araguaia foi uma atrocidade”, sentencia.

Ele considera os irmãos como “verdadeiros heróis” tombados no combate com os militares. Jaime (morto aos 25 anos), Lúcio (26 anos) e Maria Lúcia (22 anos) não foram juntos para o Araguaia. Os dois irmãos estavam em Itajubá/MG, cursando engenharia.

“A primeira a ir para o Araguaia foi a Maria Lúcia. Depois, seguiu o Jaime e, por último, o Lúcio. Maria Lúcia, na época, estava em São Paulo. Trabalhou em banco e como professora primária. Todos eram militantes do PCdoB”, conta.

O advogado diz que a partida dos irmãos para o Araguaia cortou a comunicação com a família. “Só a partir de 1977 começamos a ter informações do que havia acontecido lá. Mas não tínhamos certeza, ainda, de que eles estavam mortos”.

A família ficou sabendo primeiro da morte de Maria Lúcia. A notícia foi dada pelo ex-guerrilheiro José Genoíno, atual presidente da executiva nacional do PT. “Ele nos falou da morte de Maria Lúcia. Não tinha certeza das mortes de Jaime e Lúcio”, conta Petit.

Ele não acredita que Genoíno tenha sido delator, como alguns participantes da guerrilha afirmam. “Várias pessoas foram presas e torturadas. Afirmar que o Genoíno delatou companheiros é muito arriscado”, pondera.

O advogado, que elogia o ato de heroísmo dos irmãos na luta por uma causa que acreditavam, comenta que a mãe, Julieta, hoje com 84 anos, ainda se emociona quando o assunto vem à tona. “Nós procuramos preservá-la dessa situação. Ela tem problemas cardíacos”. Julieta mora com o filho, em Presidente Prudente.

Na avaliação de Petit, o combate travado entre os guerrilheiros e o Exército foi desproporcional. Segundo estimativas extra-oficiais, cerca de 7 mil soldados foram deslocados para a região na tentativa de acabar com o foco revolucionário. Foi a maior movimentação de tropas militares brasileiras após a 2.ª Guerra Mundial.

“O que ocorreu no Araguaia foi uma atrocidade. Embora eu não possa descartar que tenha sido uma guerra, avalio que o Exército Brasileiro chegou a extremos no combate. Houve exageros. Foram cometidas atrocidades. Cabeças foram decepadas mesmo depois das pessoas estarem mortas. Guerrilheiros foram presos, torturados e fuzilados”, expõe.

O advogado lembra que a legislação internacional sobre guerra proíbe esses tipos de conduta. “Uma vez feito prisioneiro, uma pessoa não pode ser fuzilada ou ter sua cabeça cortada. É por isso que o Exército não quer mexer nessa ferida. Se tivesse sido uma guerra limpa, a história poderia ser diferente”.

Ele tem informações baseadas em depoimentos de moradores da região de que seu irmão Lúcio foi preso vivo. “A pessoa lembra até mesmo da data. Diz que não esqueceu porque era 21 de abril, feriado de Tiradentes. Ele foi colocado num helicóptero e nunca mais foi visto”.

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