Dezesseis de novembro de 1970. O jornalista Luciano Dias Pires, correspondente do jornal Diário de São Paulo, recebe um telefonema em casa. A polícia havia localizado o corpo da menina Mara Lúcia Vieira, de 9 anos, abandonado no banheiro de uma residência localizada na rua Saint Martin. Ela fora brutalmente estrangulada.
Pires foi ao local e se deparou com o corpo inerte de Mara Lúcia envolto na corrente de descarga do vaso sanitário. O crime chocou a cidade. Mais do que isso: sensibilizou o jornalista, que na época também era pai de crianças na mesma idade da menina assassinada.
Nos 60 anos de jornalismo dedicados a Bauru, esse foi o pior dia de Pires, que marcou sua vida de profissional de imprensa. “Me lembro como se fosse hoje. Cheguei em casa chorando. Fui para a máquina escrever a reportagem. Não consegui parar de chorar. As laudas ficaram ensopadas de lágrimas. Foi muito triste”, lembra.
O jornalista Luciano Dias Pires é o atual editor do Bauru Ilustrado, suplemento que circula mensalmente no Jornal da Cidade. A família Pires, como ele gosta de ressaltar, tem tradição no jornalismo. Seu pai, Francisco Xavier Pires Corrêa, era tipógrafo. Antes de começar no jornalismo impresso, Pires dedicou o início de sua carreira ao rádio. “Em 1950, montei um serviço de som no estádio do Esporte Clube Noroeste. Um dos locutores da antiga G-8 (Bauru Rádio Clube) me ouviu e gostou. Como a emissora precisava de alguém para trabalhar à noite, encarei a proposta”, relata.
Pires também freqüentou os estúdios da antiga Rádio Terra Branca. Depois, iniciou sua experiência no jornalismo impresso. “Era uma luta, uma dedicação a toda prova. A gente trabalhava com muito amor. Saíamos na cidade atrás de notícias. Depois que se via a reportagem publicada no dia seguinte, a satisfação era muito grande”, conta.
Na opinião dele, a maior dificuldade na época estava localizada na revelação de fotos. “Para se revelar uma foto, demorava no mínimo dois dias. Os jornais não tinham fotógrafos. Tínhamos que chamá-los na hora de fazer a reportagem. Os clichês eram outra dificuldade. No começo, só São Paulo oferecia o serviço”, lembra.
Na comparação do jornalismo do passado com o atual, Pires avalia que os profissionais de hoje prestigiam mais as redações, os telefones e as agências. “Na minha época, íamos para as ruas e escrevíamos a entrevista apoiado nos joelhos. É lógico que a tecnologia evoluiu e melhorou muito o jornalismo impresso”, pondera.