Bairros

Comunidades autônomas x Comunidades esquecidas

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

Um bauruense morador da Zona Sul sabe que pode viver a plenitude da vida cotidiana - que inclui desde afazeres corriqueiros como buscar comida para a família e os animais de estimação, comprar tudo o que uma pessoa precisa, pagar contas no banco e cuidar da saúde, até atividades de lazer - sem precisar sair de seu bairro. A região pode ser considerada uma verdadeira “cidade dentro da cidade”.

Mas se o endereço deste mesmo bauruense for diametralmente oposto, na Zona Norte, por exemplo, a situação será bastante diferente. Quando muito, os moradores dos bairros desta região contam com pequenas mercearias e bares ao alcance de uma leve caminhada. Para os demais serviços e o comércio de itens específicos, a saída é buscar um meio de transporte e se deslocar para outras regiões.

O JC nos Bairros visitou algumas destas regiões da cidade e constatou que o fenômeno não é mera conseqüência do acaso. Apesar dos fatores que desafiam as explicações de especialistas, o fato é que uma região acaba “agraciada” com uma extensa malha de prestação de serviços quando os investimentos privados encontram ambiente favorável à sua instalação. E este ambiente apenas surge quando o investimento público é direcionado de forma equilibrada e consciente.

O arquiteto José Xaides de Sampaio Alves, professor-doutor do Departamento de Arquitetura e Urbanismo da Unesp-Bauru, valia que a cidade historicamente vem aplicando a maior parte dos investimentos públicos e privados em regiões com vetor de desenvolvimento mais ligados às classes média e alta. “São as regiões com menos problemas na cidade, onde a população independe até mesmo do poder público”, constata.

Xaides lembra que a região da Zona Sul e Centro concentra atualmente algumas das mais importantes áreas de comércio e serviços da cidade, numa referência a pólos como os formados na região do Bauru Shopping e no entorno das avenidas Getúlio Vargas e Nossa Senhora de Fátima. “São corredores de comércio e serviço que atendem plenamente a própria região, mas também outros bairros, que são carentes neste aspecto”, avalia.

Uma prova desta vocação de grande pólo gerador de comércio e serviços, segundo o arquiteto, são dados coletados junto à Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural (Emdurb), segundo os quais 56% do transporte coletivo têm alguma ligação com as regiões da Zona Sul e Centro. “Por tudo isso, grande parte dos empregos formais também estão nesta região”, completa.

Esgotamento

Tamanha concentração de prestação de serviços nas regiões da Zona Sul e Centro, fruto do desequilíbrio no direcionamento dos investimentos públicos, porém, já começam a dar sinais de esgotamento. “Esse processo está se tornando autofágico, o que faz com que estes serviços comecem a se espalhar por toda a periferia, mas de uma forma totalmente desordenada e sem planejamento”, avalia.

Com isso, constata Xaides, começam a surgir novas centralidades concentradoras de prestação de serviços e comércio, como por exemplo as das regiões do Núcleo Mary Dota, do Parque das Camélias, na Vila Independência (no corredor da avenida Castelo Branco), para citar as principais.

Mas são centralidades carentes principalmente de equipamentos públicos (creches, escolas, áreas verdes, etc) e que, pela falta de planejamento, acabam sendo foco de constantes conflitos ambientais, sociais e de tráfego, já que “desenho” original do local não foi pensado para outra finalidade que não apenas a de moradia. “A falta de uma praça ou de uma área verde destinada ao lazer ameniza um ambiente de grande trânsito”, exemplifica o professor.

Por outro lado, regiões periféricas localizadas além destas novas centralidades permanecem totalmente desprovidas de uma rede mínima de prestação de serviços. “São regiões que ainda estão crescendo num processo de contínuo adensamento populacional, mas com grandes problemas de infra-estrutura”, diz Xaides.

São áreas que surgem por conta de loteamentos voltados só para a venda de terrenos, sem qualquer planejamento, como as do Parque Roosevelt, Fortunato Rocha Lima, Parque Jaraguá, Santa Edwirges, Vila Industrial, Jardim Tangarás, Pousada da Esperança, Parque Bauru, Jardim Manchester, só para citar os mais significativos.

E é justamente nestas “franjas” da cidade onde se concentram a grande demanda por investimento público. “É como se Bauru fosse uma grande pizza, mas com recheio e tempero só de um lado”, compara o arquiteto.

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