Tribuna do Leitor

Homo sapiens x bicho em extinção


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Faz algum tempo que eu queria escrever a respeito desse assunto nesta coluna, e pelos fatos que aconteceram ultimamente, chegou a hora certa. Seguinte: há algumas semanas atrás morreram doze crianças indígenas (de fome!), em Dourados (MS). Onze delas tinham menos de um ano de vida.

Após saber da notícia, eu fiquei pensando: se tivessem morrido alguns micos-leões-dourados, alguns botos-cor-de-rosa, algumas ararinhas-azuis etc, a repercussão seria estrondosa. Seria um escândalo de proporções internacionais. O Brasil e o mundo iriam parar e se comover com a morte dos animais, mas como são índios, tá tudo beleza.

Lembro-me de que no ano passado uma baleia ficou encalhada numa praia do Rio de Janeiro. A cidade parou para observar o animal, saiu no Jornal Nacional, no Jornal da Record, no Cidade Alerta e em tudo o que é lugar... Gente chorando e tudo mais.

O que eu quero deixar bem claro é que os valores estão completamente invertidos. Parece que se dá muito mais valor para um bicho do que para um ser humano. Isso é inadmissível! Animal não precisa de CIC, RG, Certidão de Nascimento. Animal não precisa de emprego, não precisa trabalhar para sustentar a família. Animal não precisa de estudo, de roupa para vestir, de escova de dente, sabonete... Animal não enfrenta fila do INSS, não mora embaixo de uma ponte, não passa fome, vergonha, humilhação. Não é discriminado por racismo e não sofre preconceito algum.

Quando morre um animal não existe velório, missa de 7.º dia. O animal não precisa de caráter, de dignidade, de honestidade. Animal não tem um nome a zelar etc, etc, etc... Sou a favor das pessoas que defendem os direitos dos animais, só que simplesmente não entra na minha cabeça um bicho (desses aí que estão em extinção) dar muito mais “ibope” do que um ser humano.

Animal é animal, e ser humano é ser humano. São duas coisas completamente diferentes. Não importa se é um indigente, um índio, um negro, um branco, um amarelo, um ancião ou quem quer que seja. São crianças indígenas que estão morrendo de fome, e não um gato, um camundongo, um cachorro ou um jacaré-do-papo-amarelo. Qualquer pessoa que tiver um mínimo de inteligência, com certeza, vai me dar razão. Mas se os defensores dos direitos dos animais quiserem me criticar, eu não ligo, não. Nesse mundo louco que a gente vive, tudo é possível... Um ser humano que dá mais valor para um animal do que para o seu semelhante. Difícil entender isso.

PS - A Secretaria de Estado da Educação baixou uma portaria obrigando as cantinas das escolas oferecerem alimentos de melhor qualidade para os alunos. Seria mais lógico se preocuparem com a qualidade do ensino público desse “país”, que é uma verdadeira porcaria. Grato pela atenção.

Alexandre Zambonaro Gonçalves - RG 20.063.692-3

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