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Próstata e preconceito


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Há algumas semanas, o País se divertiu em razão da maneira como o deputado estadual Sargento Isidório, do PT da Bahia, se referiu, da tribuna da Assembléia Legislativa de seu Estado, ao exame de toque retal a que fora submetido. Personagem folclórica na vida política baiana, o parlamentar discursou durante 25 minutos sobre o assunto. “Pensava que era de uma outra maneira. Mas, da maneira que o médico me tratou, a maneira que foi introduzido aquele dedo, foi horrível. Quase que desmaio, saí de lá com o olho cheio de vagalume”, disse o deputado. “É angustiante para um pai de família, principalmente com a minha idade, passar por isso”. As palavras do sargento Isidório, proferidas num misto de galhofa, ironia e desabafo, foram amplamente reproduzidas pela mídia e se tornaram motivo de piadas pelo Brasil afora. A realidade nos mostra, contudo, que o assunto não tem graça nenhuma. O toque retal está para o câncer de próstata assim como o termômetro está para a febre.

Temos de reconhecer, no entanto, que o parlamentar baiano deu uma importante contribuição para discutirmos o câncer de próstata e sua prevenção. O sargento Isidório é um homem comum, simples, de origem humilde, e suas opiniões a respeito do toque retal refletem o pensamento da maioria dos brasileiros. Ou seja, predomina no universo masculino o preconceito em relação a esse tipo de exame, mesmo sendo utilizado universalmente como método eficaz para o urologista detectar indícios de câncer de próstata. Como o preconceito, regra geral, decorre da ignorância, da desinformação, e, por outro lado, não podendo o urologista abdicar do toque retal em seus pacientes, devemos atuar no sentido de esclarecer a opinião pública sobre a importância desse procedimento frente ao câncer de próstata e suas conseqüências.

De causa ainda desconhecida, a incidência do câncer de próstata vem aumentando nos últimos anos, a ponto de ser hoje o tipo de câncer que mais atinge os homens e o segundo que mais mata. Estima-se que ocorrerão 540 mil novos casos desta doença no mundo no ano de 2005. Nos casos diagnosticados precocemente, o tratamento cirúrgico ou a radioterapia podem resolver o problema definitivamente, curando em mais de 90% dos casos. Já quando a doença se encontra em estágio avançado, perdemos a chance de cura, restando somente o tratamento paliativo. A melhor solução é não deixar que esses problemas aconteçam, agindo preventivamente e fazendo o diagnóstico precoce através do toque retal e da dosagem do PSA (Antígeno Prostático Específico) no sangue.

É importante salientar que dosagens normais do PSA não significam ausência de câncer, portanto, o toque retal é indispensável. Assim, os homens, especialmente aqueles com mais de 45 anos, não devem dar vez à ignorância. O que causou a dor que o sargento Isidório disse ter sentido foi seu próprio preconceito, e não o exame a que se submeteu. Procedimento médico simples, o toque retal dura de três a cinco segundos, é feito em condições de absoluto conforto para o paciente e, mais importante, pode significar uma vida longa e com qualidade.

O autor, Aguinaldo César Nardi, é presidente da Sociedade Brasileira de Urologia-SP

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