O humor costuma explorar o duplo sentido da linguagem, alertando as pessoas para o desafio que é um discurso conclusivo do tipo “falei e disse”, e ponto final... O filósofo alemão Hegel era um colecionador de anedotas. Adorava piadas justamente feitas em cima das contradições do que se afirma como coisa perfeita e acabada, mas oca por dentro. Por isso mesmo, Hegel foi um campeão da dialética, maneira de argumentar a partir das causas e não dos efeitos.
Imagine que piada o sábio alemão faria com a afirmativa de Lula segundo a qual o seu governo já fez muito pelo salário mínimo. Tanto é que, com R$ 300, “dá para comprar duas cestas básicas!”, admira-se o próprio presidente. Esquece que o trabalhador não vive só das rações mínimas de gêneros alimentícios. Também precisa de habitação, educação, transporte, saúde e lazer.
Mas voltemos a Hegel, muito mais interessante que o Lula. Dizia ele, filósofo, que “o riso pode funcionar ao mesmo tempo como um anestésico ou como estimulante”. Rindo do mundo, rindo de si mesmo, o sujeito pode “curtir” com alguma amenidade a relatividade das coisas e os mal-entendidos da linguagem. As palavras significam o que significam. Mas o que elas significam exatamente? Parece óbvio. No entanto, Hegel já nos advertia que o que é óbvio, precisamente porque é óbvio, nem sempre é compreendido.
As palavras sempre podem ter significações diferentes. O humor nos possibilita esta constatação. O que significa, por exemplo, a expressão “um minuto”? Respondo essa indagação com uma piadinha tola, como a maioria das piadas. Um cidadão que nunca tinha viajado de avião, telefona para o aeroporto e pergunta quanto tempo demora o vôo de Bauru para São Paulo. A atendente atarefada, diz:
- Só um minutinho. E o cidadão, perplexo, agradece e comenta:
- Puxa, não pensei que fosse tão rápido...
Outra historinha divertida é de um sujeito - um motorista lusitano - entusiasmado com a universalidade do idioma português, falado em Portugal, no Brasil, em Angola e em Moçambique. E, como estava conversando com um grupo de brasileiros na capital da França, disse:
- Até aqui, em Paris, estamos a falar português! Para surpresa dos seus interlocutores, o sujeito acrescentou:
- A língua portuguesa merece essa universalidade, porque é fiel à realidade. Mais fiel do que a língua francesa, em todo caso. Os outros pediram que ele fosse mais claro, e o homem explicou:
- Que os franceses chamem uma porta de “une porte” é algo que ainda se pode aceitar. Mas é absurdo chamar de “fromage” algo que salta aos olhos que é penas um queijo.
Poucas vezes paramos para pensar no que estamos dizendo. Isso não é privilégio de cidadãos portugueses. Taí o Lula que não nos deixa mentir. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)