Bairros

Prioridade agora é tombar bens ‘móveis’

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

O novo presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural (Codepac), Henrique Perazzi de Aquino, assumiu a presidência do órgão no último dia 30 e já anunciou como meta primordial da nova gestão tombamentos que, à primeira vista, não são convencionais, já que o alvo não são prédios históricos fincados no solo bauruense.

Desta vez, os conselheiros do Codepac tentarão “imobilizar”, através do tombamento, um patrimônio que pode se mover, principalmente pelos trilhos da estrada de ferro. O objeto desta ação é um conjunto de vagões (de aço e de madeira) e locomotivas que fizeram parte da história de Bauru, mas que podem “fugir” da cidade.

Aquino, também diretor de área da Secretaria Municipal de Cultura, explica que, com a extinção da Rede Ferroviária Federal, determinada através da medida provisória (MP) 246, editada pelo governo federal no último dia 6, vários museus e instituições começaram um processo de “assédio” ao patrimônio da empresa que está na cidade.

O primeiro caso de assédio aconteceu recentemente, quando pessoas ligadas à Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), estiveram na cidade para pesquisar e fotografar vagões e locomotivas estacionados em Bauru. Esta “visita” da ABPF, segundo Aquino, aconteceu sem o consentimento das autoridades bauruenses.

A ABPF, com sede em Campinas, se apresenta em seu site na Internet como “uma entidade civil, de caráter cultural, instrutivo e recreativo, sem fins lucrativos, que tem como objetivo básico promover a conservação, preservação adequada e entrega ao uso público do patrimônio histórico ferroviário brasileiro”.

“Após esta investida, eles (a ABPF) requisitaram junto à extinta Rede a aquisição destes vagões e locomotivas, mas nós queremos que eles fiquem aqui porque fazem parte da nossa história”, diz Aquino.

O presidente do Codepac admite que ABPF possui uma grande estrutura - “maior que a nossa” - já montada na cidade de Campinas para restaurar este acervo, mas lembra que Bauru também possui capacidade para isso. “Já restauramos uma locomotiva (maria-fumaça) e dois vagões através do trabalho de funcionários da prefeitura em parceria com os da Rede. E vamos continuar o trabalho”, garante.

Diante deste cenário de ameaça ao patrimônio histórico da cidade, Aquino garante que o Codepac deverá acelerar os processos de tombamentos que, segundo ele, não são inéditos. “Vamos acelerar os processos já em andamento e incluir os outros equipamentos que também correm risco de deixar a cidade”, avisa. Para isso, pretende até mesmo convocar os conselheiros do Codepac de forma extraordinária para agilizar a tramitação do processo.

Nem mesmo uma medida mais drástica, na esfera judicial, estaria descartada. Segundo o dirigente, é possível que o Jurídico da prefeitura seja acionado. “Se preciso, entraremos com um mandado de segurança impedindo uma eventual retirada dos equipamentos”, adianta.

Campanha

Paralelamente às ações para evitar o assédio “estrangeiro” pelo patrimônio ferroviário bauruense, Henrique Perazzi de Aquino quer implementar uma campanha para sensibilizar parceiros que possam financiar os trabalhos de restauração destes vagões e locomotivas. “Precisamos segurar este patrimônio, mas também criar condições para recuperá-lo”, diz.

A campanha tornou-se visível já na semana que passou, por ocasião da Semana do Ferroviário, quando vagões e locomotivas receberam faixas com os dizeres da campanha e com o custo estimado de sua restauração.

Os primeiros resultados já começaram a surgir, com a confirmação de uma parceria com a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), que acertou uma parceria com a Secretaria de Cultura objetivando restaurar um vagão e transformá-lo num carro postal. “Os trabalhos de reforma devem começar em 30 dias”, anunciou Aquino.

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