Quem visita a cidade de Santa Cruz do Rio Pardo (120 quilômetros a sudoeste de Bauru) não deixa de ver o palacete da família Lorenzetti na praça Dr. Pedro César Sampaio. Prédio majestoso que mostra, ainda que deteriorado pelo tempo, todo o encanto e estatus que a família tinha na década de 30 quando ele foi construído.
De arquitetura primorosa, o prédio está fincado na área central da cidade e, por ter ficado fechado durante muitos anos, acabou aguçando a imaginação dos moradores que contam muitas histórias misteriosas. Dizem que, altas horas da noite, é possível ouvir e até ver assombrações no porão. Lendas à parte, o palacete, atualmente ocupado pela Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, é uma das maiores construções da cidade.
Construído entre 1934 e 1936 por Plácido Lorenzetti, um grande produtor de algodão, o palacete abrigou seu idealizador por apenas três anos e é uma “réplica†de outro prédio localizado em Santos (litoral paulista). “Ele levava algodão para o porto e se encantou com o prédio semelhante. Como morava aqui, construiu uma cópiaâ€, explica a secretária de Cultura e Turismo do município, Regina Celedonia Pitol Rodrigues.
De acordo com ela, é uma obra de época. “Tem uma mistura de estilos. É superparticularizada. Possui afrescos nas paredes e esse é o grande valor dela. O palacete é todo recoberto em gesso. A estrutura é feita em peroba, madeira própria da região. Com essa idade, a construção não tem uma rachadura.â€
O piso é em cerâmica feito um a um. Também há cômodos com o piso em granito e mármore italiano. As portas e janelas são de madeira maciça e, apesar da ação do tempo, continuam inteiras, fecham e abrem sem problemas. “Os tijolos foram confeccionados com barro retirado das margens do Ribeirão São Domingos onde o dono tinha grandes propriedades.â€
A pintura da parte interna é algo que salta aos olhos. “Cada cômodo da casa tem um tipo de pintura na parede e no teto. As salas de convivência têm afrescos marmorizados, feitos com tinta a óleo, própria para tela, muito detalhados. Infelizmente, se perdeu muita coisa por conta da umidadeâ€, lamenta.
São três andares com 12 cômodos nos dois andares úteis e um porão com pé direito altíssimo que corresponde a casa toda, frisa a secretária. “Todos esses anos sem manutenção e ela mantém a estrutura. Não tem nenhuma coluna de concreto nem de ferro. O banheiro social tem lustre francês e toda a louça é importada. Os espelhos são bisotês.â€
A secretária lamenta que muitos dos lustres foram furtados. “Em algum momento, os lustres, que eram da época, foram levados por pessoas que invadiram a casa. Os adereços em bronze que ficavam na varanda com as luminárias também. Tivemos sorte que as paredes não foram pichadas.â€
Olhando as paredes externas fica a impressão de que elas foram pintadas. “Elas não foram pintadas. Receberam um pigmento feito de óxido de ferro, que os construtores iam colocando em quantidades diferentes dentro da massa para assentar os tijolosâ€, explica a secretária.
Prédio teria ‘fantasmas’
O imaginário popular cria situações que nunca existiram, mas que são reconhecidas como verdades a partir do momento em que são passadas de uma pessoa para outra. O palacete de Plácido Lorenzetti não ficou fora disso. Os moradores da cidade de Santa Cruz do Rio Pardo o chamam de palacete mal-assombrado.
O prédio deteriorado e com móveis antigos e cheio de teias de aranha, completava o cenário de mistério e contribuía para alimentar a imaginação das pessoas.
Cada morador tem uma história diferente para contar, sempre instigado pela arquitetura antiga do prédio e pelo fato dele ter ficado fechado por cerca de 12 anos.
Verdade ou mentira, lenda ou superstição, a população conta que o palacete serve de abrigo para assombrações. Dizem que os escravos que trabalhavam para a família Lorenzetti eram presos em quartinhos de madeira no porão e por, sofrerem demais, aparecem até hoje, tarde da noite, para quem se atrever a entrar em seus “aposentosâ€.
A secretária de Cultura e Turismo, Regina Celedonia Pitol Rodrigues, explica que com exceção das construções mais modernas, o palacete é o maior prédio da cidade. “Ele tem seus encantos e, como ficou fechado muito tempo, ativou a imaginação de cada um. As pessoas constróem histórias, mas não há registro de algo acontecendo aqui.â€
O prédio chama a atenção. “Você olha e imagina coisas acontecendo no palacete. Grandes festas ou uma grande tragédia. Mas não houve nada disso.â€
Quando se fala em escravos presos, ela esclarece. “Os moradores falam nos escravos, porém o prédio não foi construído na época da escravatura. Os quartinhos onde muitos acreditam que os serviçais ficavam presos, na verdade, eram cômodos usadosa para guardar produtos de limpeza, portanto não têm fundamentação essas histórias de mistérios.â€