Compartilhando um relacionamento maduro, casais bauruenses que moram em cidades diferentes contam como fazem para driblar a distância e manter a convivência. Carregados de emoção, os depoimentos concedidos à reportagem refletem a força desse amor. Confira a seguir.
Elza e Takehisa
Morando juntos há duas décadas, o auditor Takehisa Inoue e a auxiliar administrativo Elza Yamada Inoue estão convivendo com uma nova rotina há pouco tempo. Há menos de um ano, ele - que trabalhava em Bauru - conseguiu um emprego em São Paulo.
Desde então, Takehisa passa a semana morando em um hotel na Capital, enquanto Elza trabalha e vive com os dois filhos do casal, Camila, 20 anos, e Gabriel, 16 anos, em Bauru. A família se encontra aos sábados e domingos. “Sempre moramos juntos e estivemos perto um do outro antes dessa mudança. No começo, eu senti um pouco, mas acho que para ele foi pior porque saiu de casa e foi para outro lugar, em um ambiente diferente”, diz ela.
Conviver com a saudade, amenizada pelas constantes ligações telefônicas, é um dos pontos mais difíceis do dia-a-dia, aponta ele. “Esse sentimento aumenta principalmente depois das quartas-feiras. Por outro lado, não temos espaço para muitas discussões”, ressalta. Ambos afirmam que o relacionamento se fortaleceu com a distância.
“É diferente de quando a gente se vê todos os dias. Temos mais assuntos no final de semana”, diz Elza. Takehisa afirma que o segredo do seu casamento é a confiança e o respeito. “É preciso saber que quando dá saudade, não precisamos procurar outras coisas. Basta ser um casal maduro”, define.
Kristiana e Júnior
Kristiana Regina Diogo Martins e Ermelindo Inácio Martins Júnior, casados há 20 anos, são proprietários de uma empresa de distribuição de panfletos em Bauru e de outra do setor imobiliário em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.
Por conta dos negócios, há três anos, ela mora com um dos filhos, Thauan, 13 anos, em Bauru, enquanto ele passa a maior parte do mês em Campo Grande, onde o outro filho do casal, Thalys, 17 anos, vive desde 2004. O casal costuma se encontrar quinzenalmente, mas se comunica todos os dias por telefone e pela Internet.
Kristiana conta que a distância é rotina na vida do casal. “Desde 2000 estamos assim. Teve épocas em que eu fiquei em Campo Grande e ele em Bauru, e vice versa. Dá muita saudade”, diz. Um dos pontos negativos da distância são os pequenos problemas do dia-a-dia. “Quando tem alguma questão particular ou da empresa, eu cuido, assim como se eu não estou lá, ele resolve sozinho”, detalha ela.
Como eles têm pouco tempo para se encontrar, Kristiana conta que, quando estão juntos, deixam os assuntos profissionais de lado e aproveitam para namorar. “A distância é difícil, mas como nos damos bem, acabamos tendo que acostumar com ela por causa do trabalho. Mas isso nos uniu mais ainda”, observa ela.
Júnior concorda. “Casamos porque nos amamos, nos separamos pela necessidade. É bom porque isso acaba com a rotina, é como se fosse um casal de namorados”, diz. Segundo ele, a convivência é pautada pelo respeito mútuo. “Um confia no outro e por isso que dá certo”, afirma Kristiana. “Quando estamos longe, realmente, percebemos que nosso amor é forte”, enfatiza ele.
Cleómenes e Simone
Desde que se casaram, há 25 anos, a dona de casa Simone Garcia Gomes e o engenheiro civil Cleómenes Batista Gomes sempre conviveram com a distância em suas vidas. Por causa da profissão, que faz com que ele mude constantemente de cidade, ela decidiu ficar em Bauru com os filhos Ricardo, 24 anos, e Cláudia, 23 anos. Sempre que sobra uma folga no trabalho, Cleómenes volta para casa, morrendo de saudade da família.
“Ele vive viajando. Já ficou cerca de três meses em Curitiba, Sergipe e Bahia. Passou também sete meses no Uruguai. Mas vinha para Bauru uma vez por mês. Agora, está no Interior de São Paulo e volta com mais freqüência, aos finais de semana”, conta Simone, que desde o início do relacionamento já convivia com as viagens constantes do marido. Segundo ela, na época em que namoravam, Cleómenes fazia estágio na área de engenharia e precisava morar em outra cidade.
Logo que se casaram, Simone acompanhava o marido toda vez que ele se mudava de cidade. Essa fase, porém, não durou muito tempo. “Morei no Pará, em Andradina e Mirandópolis. Mas depois vim para Bauru e estacionei. As obras ficaram mais rápidas e ele mudava de cidade direto. Além disso, nossos filhos estavam fazendo colegial, aí não dava para ficar mudando senão iria prejudicar muito o estudo deles”, diz ela.
Embora a saudade seja grande, Simone afirma que o casal tem uma ótima convivência. “É bom porque nós estamos sempre com saudade. Fico na expectativa da chegada dele e acho que a distância é até boa para o nosso relacionamento. Não temos brigas e rotina. Sempre temos novidades e trocamos conhecimentos”, revela.
Com os filhos, é a mesma coisa, afirma ela. “Graças a Deus, eles nunca cobraram o pai e são muito conscientes”, destaca. Para Simone, o respeito e a cumplicidade ajudam a manter o casamento em harmonia. “É preciso respeitar o limite de cada um, além disso saber que eu quero viver para ele e ele para mim. Nós nos respeitamos e vivemos muito bem”, diz.
Leonilda e Fernando
Razões profissionais também impedem que a comerciante Leonilda Kawaguchi e o vendedor Fernando (ele preferiu não dizer o sobrenome), juntos há 35 anos, morem sob o mesmo teto. Eles optaram por não ter filhos, mas ela vive com as quatro sobrinhas, Daiane, 16 anos, Bruna 18 anos, Roberta, 23 anos, e Elaine, 29 anos, em Bauru. Ele mora em São José do Rio Preto.
Leonilda conta que ambos são felizes com o relacionamento à distância. “Conviver todo dia juntos não dá certo, separados é ótimo. Ele vem aos finais de semana ou de 15 em 15 dias. Às vezes, eu vou para lá. Dá muita saudade, mas a relação não cai na rotina”, diz.
A exemplo dos outros casais que moram em cidades diferentes, o telefone é o elemento indispensável na vida de Leonilda e Fernando. “A gente se fala sempre. Ele liga para saber o que está acontecendo. Além disso, ele tem diabetes e também me pergunta o que pode comer ou não”, conta ela.
José Paulo e Thamy
Embora morem em Bauru, o músico José Paulo Ramos e a designer Thamy Taijó Ramos vivem uma espécie de casamento à distância. Os dois estão juntos há sete anos e decidiram oficializar a união em novembro, mas optaram por continuar morando em casas separadas por conta da rotina profissional de ambos. Por enquanto, decidiram não ter filhos.
Zé Paulo, como é conhecido no meio artístico, costuma fazer shows de quarta-feira a domingo, geralmente a partir das 18h até altas horas da madrugada. Além disso, aos finais de semana, viaja para se apresentar em outras cidades. Thamy trabalha de segunda a sexta-feira das 8h às 19h. “Acontece muito de a gente se ver dormindo. Eu sou músico e trabalho demais. Também durmo todos os dias ao amanhecer. Nossos horários são invertidos”, conta ele.
Segundo Zé Paulo, embora passem a maior parte do tempo separados, o casal sempre permanece unido. “Por eu ser músico e ficar muito na balada, isso poderia causar ciúme ou coisa do gênero, mas não acontece”, conta. Para matar a saudade, ambos contam com a comunicação via telefone. “Nos falamos muito e nossa convivência é ótima”, diz ele.
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Maturidade
Se, por um lado, o relacionamento à distância pode fortalecer a união do casal, por outro exige muito amor e dedicação de ambos os cônjuges, explica a psicóloga Maria Regina Corrêa Lopes Vanin, especialista em terapia de casais e família.
Vivendo em cidades diferentes, marido e mulher se tornam mais independentes, explica a psicóloga. “Para se viver sozinho em uma cidade diferente, é preciso se virar, não dá para contar com o outro como no dia-a-dia de quem mora junto”, diz.
Além disso, o relacionamento não corre o risco de ser desgastado pela rotina, aponta ela. “Isso pode ser um problema comum depois de alguns anos. Nessa situação, provavelmente os encontros são mais estimulantes e intensos porque os casais ficam algum tempo sem se ver”, explica Maria Regina.
Por outro lado, ela observa que a distância pode provocar cobrança ou sobrecarga de responsabilidade para um dos cônjuges. “Por exemplo, a mulher que fica com as crianças enquanto o marido vai para outra cidade, de certa forma, pode ter de assumir também o papel de pai em algumas ocasiões”, diz. “Há ainda a possibilidade da distância causar ciúme e insegurança”, aponta.
A psicóloga, entretanto, frisa que a convivência entre casais que vivem longe depende do nível de maturidade dos envolvidos. “É muito difícil avaliar, o importante é que cada um faça o melhor para si”, ressalta.