Gislaine Nunes. Esse é o nome da advogada bauruense de 37 anos amada por grandes jogadores de futebol e odiada por cartolas inadimplentes e alguns chefes de torcidas organizadas.
Sua especialidade é defender os atletas das chuteiras, ganhando processos que envolvem pagamento de salários, depósitos do fundo de garantia ou quebra de contratos com altas indenizações quando os jogadores resolvem mudar de time.
Em dez anos de carreira, Gislaine liberou mais de 200 atletas e cuida atualmente de 460 processos desse tipo. Entre seus principais clientes, estão Juninho Pernambucano, Fábio Costa, Ricardo Oliveira, Luizão, Adriano, Cicinho, Grafite, o argentino Ortega, o paraguaio Gamarra e o chileno Maldonado.
Formada em direito na Instituição Toledo de Ensino (ITE) em 1989, Gislaine começou sua carreira dentro de casa, no início dos anos 90, quando seu marido, o lateral Evandro Nunes, que jogou na Ponte Preta e no Noroeste, sofreu uma lesão e não conseguia receber seu salário. Ela entrou com uma ação na Justiça do Trabalho, ganhou e ficou famosa como a “advogada mulher do lateral”.
Em 1995, começou a advogar no Sindicato dos Atletas Profissionais de São Paulo. Em 2002, defendeu o processo de Luizão, que na época, fazia parte do Corinthians. Desde então, ganhou fama no cenário esportivo e destaque na mídia.
Apesar do sucesso, Gislaine convive com ameaças de morte e trabalha escoltada por seguranças no seu escritório, em São Paulo - o que não a impede, porém, de continuar “cuidando dos meninos”, como ela carinhosamente trata seus clientes.
Durante uma folga em sua agenda, Gislaine conversou com a reportagem do Jornal da Cidade e revelou, entre outros assuntos, curiosidades dos bastidores do futebol brasileiro.
Jornal da Cidade - Seu nome é destaque no cenário esportivo por ajudar jogadores a ganharem processos envolvendo contratos com os clubes. A senhora sempre gostou de futebol?
Nunes - Não, eu gostava do jogador. Gostava do meu namorado, que depois passou a ser meu marido. Nós nos conhecemos na infância, ele prometeu que voltaria para me buscar e voltou. Namorávamos na infância. Ele foi embora tentar ser jogador. O Matsubara o comprou. Ele foi e disse para mim que assim que tivesse condições viria me buscar e voltou.
JC - Como se tornou advogada especializada em atletas do futebol?
Nunes - Foi com meu marido mesmo. Ele foi para a Ponte Preta e lá sofreu uma lesão. Depois veio para o Noroeste, em Bauru. Quando ele chegou no Noroeste, ele já tinha uma ação contra a Ponte Preta com outro advogado. É difícil o jogador de futebol que permite que a esposa saiba da sua vida e de seus contratos. Eu não sabia nada do que se passava nos contratos do Evandro ou quanto ele ganhava, era uma coisa dele. Eu era mulher de jogador, vivia minha vida e rotina. Aí, ele foi para o Noroeste, o clube não lhe pagou o salário, e ele disse que ia procurar o advogado para entrar na Justiça Desportiva porque a Lei Zico determinava que todos os processos de jogadores tramitassem lá.
JC - De que forma a senhora resolveu o caso do Evandro?
Nunes - Pedi para dar uma olhada no contrato de trabalho e na carteira profissional do meu marido. Ele deixou e eu disse que ele tinha todos os elementos para bater às portas do Poder Judiciário Trabalhista. Eu fiz isso. O juiz aceitou, mesmo na época, o advogado do Noroeste ter batido o pé dizendo que o processo precisava entrar pela Justiça Desportiva, tramitar seis meses, e depois ir para a Justiça do Trabalho. O juiz falou que o Evandro era cidadão como outro qualquer, elencando o artigo terceiro da CLT, que prevê que em toda relação trabalhista entre empregado e empregador há onerosidade, pontualidade e habitualidade. O juiz disse que iria aceitar a ação e iria julgá-la. Geralmente, o jogador, na Justiça Desportiva, entrava com a ação, ganhava o processo, mas não conseguia receber porque não havia força executiva. A Federação não mandava penhorar nada dos clubes, nem existia condição técnica para isso. Na Justiça do Trabalho eu penhorei tudo o que o Noroeste tinha, coloquei o oficial de justiça em cima, fiz remoção, levei para leilão e consegui receber. Depois do meu marido, o Martoreli, que jogou no Noroeste e já era presidente do sindicato, me chamou para fazer o processo dele. Eu ganhei, e aí pronto: um jogador contou para o outro que havia uma advogada mulher do lateral do Interior que estava fazendo as ações e recebendo. Eu era conhecida como a mulher do lateral. Até ser conhecida como Gislaine Nunes demorou um pouco.
JC - Em 2001, um documentário feito pela BBC a chamou de Nabuco do futebol brasileiro, em alusão a Joaquim Nabuco, que liderou a campanha pelo fim da escravidão. A senhora se considera uma espécie de libertadora dos jogadores?
Nunes - Diante de tudo o que eu sofri, das ameaças de morte e da maneira carinhosa como eu trato os jogadores, enfim, em função de tudo o que eu fiz e de como já deixei jogadores milionários, eu me considero, sim, uma libertadora. Não tanto como Joaquim Nabuco, porque os dogmas que esse cavalheiro quebrou foram muito mais profundos. Mas eu me considero uma pessoa que fez o bem para esses meninos.
JC - Há muita exploração no mundo do futebol?
Nunes - Eu acredito que não é bem o termo exploração, mas os pesos e as medidas não estão corretos ainda. A despeito de que o instituto do passe acabou, temos dois pesos e duas medidas que não são exatamente as mesmas para os dois lados. Nós temos bons dirigentes, mas são poucos. Em geral, o dirigente sempre ganha mais, ele bate o pé e estabelece as regras. Por exemplo, em relação ao direito de arena (estabelecido pela Constituição Federal, ele prevê que todo jogador de futebol que entra em campo tem direito a 20% do dinheiro pago pela televisão aos clubes pela transmissão do evento), o sindicato conseguiu 5% desse direito para os jogadores. Os clubes não pagavam e todos os sindicatos do Brasil entraram com uma ação e conseguiram um acordo com o clube dos 13 de 5%. É uma grande vitória e um dinheiro que eles recebem todo final de campeonato. Se, na época, meu marido tivesse isso, seria ótimo.
JC - Quantos processos a senhora cuida atualmente?
Nunes - Eu cuido de 460 ou mais. Hoje, eu já não sou mais advogada do sindicato, mas todos os processos que estavam lá tramitando vieram comigo, para o meu escritório, porque eu continuo respondendo por esses processos que são de nomes famosos: Gamarra, Juninho Pernambucano, Cicinho, Luizão, entre outros.
JC - A senhora ganhou mais do que perdeu ações?
Nunes - Com certeza. Sem modéstia, seguramente, dá para contar nos dedos das mãos os processos que perdi. Quando eu perco é porque o jogador esconde ou oculta alguma coisa e o juiz não vai muito com a minha tese e eu tenho que recorrer.
JC - Quais foram os casos mais valiosos?
Nunes - O caso do Luizão, que é de R$ 9 milhões, do Gamarra, de R$ 18 milhões, do Rincón, que está em R$ 7 milhões, e do Márcio Santos, já tramitado e julgado, de R$ 7 milhões e 200 mil.
JC - Como é sua relação com os jogadores?
Nunes - Eu os trato como bebês, mas quero deixar claro que eles são homens fortes e capazes, até porque chegaram onde chegaram. Eu os chamo assim porque criou-se essa maneira de tratamento entre nós. Por eu ser mulher, os meninos sentem em mim aquela confiança e segurança que só uma mãe transmite. Presenteio os jogadores com livros. Eu dei a obra “Quem tem Medo do Escuro”, do Sidney Sheldon, para o Grafite. Mandei para o Rogério Ceni um livro que trata de coincidências e momentos mágicos na vida. Eu e o Alex Alves lemos juntos “Perdas e Ganhos”, da Lya Luft, e disse para o Fábio Costa que vamos ler “Sopa de Pedra” (de Ricardo Bellino).
JC - A senhora abriu uma empresa de marketing para gerenciar a imagem dos atletas do futebol. Como é esse trabalho? Ele se inspira no papel de mãe?
Nunes - Tenho uma parceria com a empresa da Marlene Mattos, a Arquivo X, e trabalhamos com alguns atletas: Rogério Ceni, Grafite, Zetti, Luxemburgo, Adriano, Ricardinho, David, Thiago, Pedrinho, Mancini, Marcos, Diego Souza, Robinho, enfim, um apanhado de atletas. Quero mostrar para o jogador que o melhor investimento que ele pode fazer é nele mesmo. Eu falo isso para os meus meninos. Nós fazemos aula de inglês e espanhol no meu escritório, dois dias na semana. Se eles vão para o Exterior, eu cuido de tudo, da ida, da empregada, do passaporte da família, da esposa, da mudança, de como eles vão se virar fora do Brasil. Desenvolvo uma proteção, uma blindagem na vida do jogador, onde o ensino a acreditar em si mesmo, afirmando que ele é, além do jogador, que pode ganhar muito além das quatro linhas. Mostro que eles são homens bonitos e gosto de vê-los bem vestidos e tranqüilos. Não os transformo em metrossexuais, mas gosto de vê-los sempre bem arrumados e usando camisinha sempre. Isso é condição básica para ser feliz, além do casamento com separação de bens, etc.
JC - A senhora dá conselhos pessoais para os jogadores?
Nunes - Sim, ensino para eles, por exemplo, que um casamento sem cumplicidade não existe. Pergunto para ele se amam e têm cumplicidade com sua mulher.
JC - Em relação às mulheres que se aproximam dos jogadores simplesmente pela fama, chamadas de “Marias chuteiras”, qual é seu conselho para os atletas?
Nunes - Eu fico brava. Digo para os casados que precisam valorizar aquela que limpou suas chuteiras quando eles jogavam no barro, fazendo teste. Para os que não são casados, falo para terem cuidado com quem vai se aproximar deles. Essa pessoa tem que ter estudo e saber que a felicidade e realização profissional é individual e que não importa a mulher ser casada com um jogador de futebol milionário e ficar prostrada o dia inteiro diante deles. A mulher boa e verdadeira vai buscar fazer um curso, se aprimorar e não só cuidar do corpo para estar sempre bonita para eles. Digo para os meninos que é preciso primeiro ser feliz consigo mesmo para transmitir isso para o grupo, para seus torcedores e para dentro do seu lar. Digo para eles não ocultarem seus sentimentos e também terem cuidado com alguma coisa mal escrita ou falada.
JC - A senhora orientou o Grafite após o episódio envolvendo a injúria cometida pelo jogador argentino?
Nunes - No caso do Grafite eu não entrei no mérito judicial, mas disse para ele tomar cuidado, não aparecer demais, que o problema não era dele. Disse que ele era muito lindo, um moreno maravilhoso, um jogador de alma e caráter. Eu sempre procuro transmitir que a vida é boa e gostosa, independente do problema que nós temos.
JC - A senhora é otimista por natureza...
Nunes - Eu sou. Já enfrentei cada situação. Por exemplo, de chegar em São Paulo e não saber o que comer. Mas tinha certeza que iria vencer. Sou otimista e estou sorrindo. Gosto de enxergar a vida sempre com solução.
JC - É dessa forma que lida com as ameaças que sofre por causa do seu trabalho?
Nunes - É. Eu mando essas ameaças para o inferno. Afinal, quem vai fazer não me liga avisando.
JC - A senhora sempre faz questão de dizer que nasceu em Bauru em suas entrevistas. Tem planos para voltar a viver ou trabalhar na cidade?
Nunes - Onde quer que eu caminhe, digo que sou de Bauru. Tenho um grande orgulho de ser bauruense. Quero um dia voltar para a cidade, pegar o dinheiro que eu possa ganhar, montar alguma coisa e ficar tranqüila aqui. Mas vamos ver seu eu consigo ficar sem meus meninos.