Tribuna do Leitor

Conservadorismo em pleno século XXI


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A morte do papa João Paulo II no dia 2 de abril de 2005 deixou uma dúvida aos católicos de todo o mundo, sobre o rumo da Igreja com a eleição de um novo pontífice. Foi a partir daí que começaram as especulações acerca dos nomes cotados para ocupar o trono de Pedro, terminado o conclave de cardeais que se iniciaria no dia 18 de abril.

Enquanto a data se aproximava, jornais como O Estado de S. Paulo passaram a publicar sessões diárias com os cardeais papáveis, angariando informações quanto a sua origem, posicionamento na Igreja – conservador ou liberal –, além de mostrar qual a opinião dos vaticanólogos (especialistas nos assuntos do Vaticano) acerca da possível eleição de determinado cardeal.

Com o correr dos dias, entretanto, esses especialistas passaram a apontar com prevalência determinados nomes como favoritos entre os papáveis do colégio cardinalício; dentre eles – e no topo das listas – o do alemão Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para Doutrina da Fé (um Santo Ofício atualizado) há quase vinte e cinco anos, e considerado o braço direito do falecido papa João Paulo II.

Como hoje em dia se sabe, o alemão foi realmente eleito por seus confrades, e num tempo considerado curto para um conclave. No dia 19 de abril, a chaminé instalada sobre a capela Sistina e seus sinos já anunciavam que, com o segundo escrutínio do dia – e menos de vinte quatro horas depois de começadas as votações –, havia sido eleito Joseph Ratzinger, que adotou o nome de Bento XVI.

O ex-cardeal Ratzinger, no comando da Congregação para Doutrina da Fé, era o encarregado de proteger os preceitos essenciais da Igreja, e de analisar e verificar a concordância dos estudos e propostas teológicas com esses preceitos, dogmas, essências da fé cristã e fundamentos do catolicismo. Desempenhou essa função de modo zeloso, mantendo um posicionamento que se demonstrou conservador e por vezes considerado exagerado pelos indivíduos contrários às suas idéias, sendo inclusive apelidado de “grande Inquisidor”.

Existe uma série de casos que evidenciam a postura do então cardeal quando no exercício de seu cargo, uma postura de preservação dos valores católicos e do repúdio ao “império do relativismo” – como citou na missa que deu início ao conclave do dia 18 de abril –, que ele acreditava estar impregnando as pessoas. Esse “império” estaria fazendo com que a religião fosse tratada sem os devidos cuidados.

Também ressaltava – durante a Guerra Fria – a neutralidade que a Igreja deveria adotar nas questões políticas globais; e nesse aspecto em particular, entrou em conflito com uma corrente teológica bastante representativa na América Latina nos anos setenta e oitenta: a Teologia da Libertação, que debatia a aproximação entre os religiosos e os pobres, carentes, e a profunda hierarquização da Igreja Católica. Ratzinger acreditava que os teóricos desse movimento tinham tendências ao marxismo e poderiam estar agindo como fomentadores da luta entre classes.

No dia 17 de abril, antes da eleição de Bento XVI, O Estado de S. Paulo publicou uma entrevista com o teólogo brasileiro e ex-frade franciscano Leonardo Boff, expoente da Teologia da Libertação. Boff falava de sua experiência com as restrições impostas pela Cúria Romana, e em especial pela Congregação para Doutrina da Fé – comandada pelo então cardeal Ratzinger. O brasileiro dizia que o alemão era “um dos cardeais da Cúria mais odiados pela Igreja” e que era assim, pois “humilhou conferências de bispos e colegas cardeais pela forma autoritária como sempre tratou as questões de fé”.

Boff defendia e defende o fim do celibato entre o clero, e o ingresso das mulheres no sacerdócio. Por um acumulado de motivos ligados às suas opiniões, o teólogo brasileiro foi punido pelo Vaticano com um ano de silêncio obsequioso. Esse tipo de reprimenda mostrou-se recorrente sobre teólogos de pensamento mais liberal, e pode-se citar ainda o caso da freira brasileira e teóloga de renome no exterior, Ivone Gebara.

Ivone consta entre as grandes teólogas do século XX, mas no início dos anos noventa foi “convocada” pelo cardeal Joseph Ratzinger a voltar para a Universidade Católica de Louvain (na Bélgica), para “reeducar-se” em teologia. O veto do cardeal a uma proeminente religiosa, poliglota, freira exemplar, é uma amostra de seus rigores doutrinários.

Em entrevista ao caderno Aliás do jornal Estadão de 24 de abril, a religiosa descreveu como se sentiu ao ver o cardeal eleito como Bento XVI no dia 19: “Não pensei em mim nem na minha história. Lamentei pela comunidade cristã”, e declarou acreditar que os cardeais foram ao conclave preparados para votar em alguém que desse continuidade ao papado de João Paulo II. Também admitiu que teólogas feministas, como ela, podem ter sua licença docente cassada, como “já vem sendo feito pelos senhores do Vaticano”.

Verificou-se que os cardeais do colégio cardinalício decidiram realmente pela continuidade, e a rapidez na escolha de Joseph Ratzinger apenas vem comprovar a unidade da Cúria Romana nesse sentido, de modo que o papa Bento XVI já tem a missão de manter e espalhar essa unidade entre os religiosos e fiéis católicos pelo mundo.

Luiz Romano Locai - estudante de jornalismo da Unesp

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