Da "fúria dos justos" aos "pastores da chuva"
Esses tais justos exercitam sua fúria sem parar em todos ambientes. Eles acusam “ladrões”, “pedófilos”, “homossexuais”, “prostitutas”, “adúlteros”, “políticos”, “empresas”, “profissões”, “assassinos” etc. etc. E não fazem mais nada do que exaltados acusar aqui e ali, a não ser que haja linchamento onde sem remorso atiram a primeira pedra. E ficam se sentindo muito bem, crentes do dever cumprido, mesmo que, quase sempre, já tenham cometido todos aqueles pecados.
Os “pastores de chuva” pregam com santa voz as bem-aventuranças se pecados não houver. “Você não deve comer carne porque...”, e fazem o sermão enquanto vão batendo bifes. Lembram do terrível monge, padre, sei lá o que de “O Corcunda de Notre Dame” que trata o pobre aleijado Quasímodo como um cão enquanto persegue e quer pegar a cigana Esmeralda! E que acaba lhe causando a morte entre orações aos pés da cruz.
Conheço e sofri constantemente na carne as ações dos dois tipos. Sofri ataques em sociedade, no trabalho, em família e onde quer que eu estivesse sempre tinha um me arreganhando os dentes. Fui caluniado, apedrejado, violentado. Perdi dinheiro, cargos, a saúde e o sossego levado por esses vampiros travestidos de “lídimos senhores”.
Fui como Sadie Thompson, do Sommerset Maughan, o alvo ideal. Miss Sadie (vivida no cinema por Rita Hayworth em “A Mulher de Satã” é a alegria da rapaziada naval na ilha em que chega. Mas no mesmo Hotel Le Bambri está hospedado o “pastor fulano”, a esposa dedicada e feia e sua turma. E ele então persegue e enche o saco dela dizendo querer “salvá-la”. Até que um dia ele a agarra à força. E depois a destrói. É o “pastor de chuva”, pois “chuva” é o título original do texto.
É o que temos ainda por aí nesses tempos de “cabeças rolando”. É o que temos batendo em nossos portões na calada da noite e cuspindo em nosso rosto à luz do dia. E é por eles que devemos orar para que vençam ou amenizem seus demônios-hormônios, até a hora das nossas mortes. E amém.
Hesso Maciel - RG 4.161.922