Sem entrar no mérito de qual governo apresentou as maiores taxas básicas de juros (Selic) nos últimos anos, nem fatores macroeconômicos que levam o Banco Central do Brasil a elevar ou diminuir a taxa de juros, o que está em discussão é mais uma das bravatas infundadas de Lula que são proferidas ao léu, para quem quiser ouvir ou ler, que causam constrangimentos ao Planalto e necessidades de explicações posteriores.
Na segunda-feira, 25 de abril de 2005, durante o lançamento do Programa Nacional de Microcrédito Orientado (programa muito bem-vindo porque auxilia pequenos investidores que queiram crédito para seus negócios), o presidente tentou, com seu jeito espalhafatoso e vocabulário discutível, dividir a responsabilidade pela taxa de juros do Brasil entre o governo federal e os brasileiros. Um disparate homérico.
Novamente, o presidente consegue atrair, depois de uma frase mal dita (seria maldita?), toneladas de críticas que poderiam ser evitadas caso ele fosse melhor assessorado antes de seus pronunciamentos públicos. Ao afirmar que o brasileiro “não levanta o traseiro” para mudar de banco, procurando uma taxa de juros mais baixa (e que teria, segundo o presidente, o poder de persuadir os outros bancos a baixarem suas taxas por criar competição entre as instituições bancárias), o presidente tentou tirar do Banco Central (e de sua própria política macroeconômica) a responsabilidade de determinar a taxa de juros.
É como se o brasileiro, de uma hora para a outra, tivesse o poder de determinar políticas econômicas que estão a cargo do governo federal. A taxa de juros básica é o que determina o “custo do dinheiro” e o lucro de quem o “empresta”. Quando o governo determina aumento da Selic, demonstra ao mercado que o mesmo pagará tal percentagem aos seus credores. É lógico que entre bancos comerciais e clientes a taxa é maior (que a Selic), pois o risco de empréstimo para pessoas físicas e jurídicas é maior do que para o governo.
A Selic onera, principalmente, o setor produtivo nacional, encarecendo as linhas de créditos para empresas brasileiras que empregam mão-de-obra de todos os níveis hierárquicos. Taxa maior, produção menor, mais desemprego. Não é por menos que o vice-presidente José Alencar, que também é empresário, critica a posição do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC sempre que a taxa Selic aumenta, o que vem ocorrendo há meses.
É óbvio que o aumento da taxa apenas acontece depois de reuniões e discussões entre todos os diretores do Banco Central e nem sempre é prejudicial. Com esta ferramenta, é possível manter a inflação em níveis aceitáveis, evitando-se que o cidadão compre um produto amanhã pelo dobro do preço de hoje. Vale lembrar a época de inflação descontrolada, nos idos da década de 80, que ultrapassava o patamar de 300% ao ano. É lógico que nenhum brasileiro quer o retorno da inflação, principalmente os que recebem um salário mínimo.
Apenas o Governo Federal e o Banco Central devem assumir a responsabilidade direta pela política econômica brasileira. Nós devemos assumir responsabilidades em eleições, quando podemos demonstrar nossa vontade nas urnas e na procura diária de nossos direitos (não nos esquecendo dos deveres), sempre nos pronunciando. Mas existe um ponto positivo nos discursos presidenciais cheios de deslizes: os colunistas nunca ficam sem assunto.
O autor, Edson Augusto Carvalho Balestri, é bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo