Com o frio iniciante na nossa calorenta cidade e a aproximação do inverno, vale a pena contar sobre a crença norte-americana de previsão do tempo.
Se a marmota, ao sair de sua toca depois da hibernação, vê a sua própria sombra, o inverno em andamento nos Estados Unidos durará mais seis semanas. Se não olhar para sua sombra, a primavera logo chegará.
Essa crença tradicional, com a solenidade de forçar a marmota a sair de sua toca, é acompanhada por milhares de pessoas em algumas cidades americanas. O resultado meteorológico às vezes é contrariado, obviamente.
Isso aconteceu neste inverno na festa religiosa da Candelária de Punxsutawney, cidade da Pensilvânia, contrapondo-se às marmotas de Staten Island, em Nova York e de Lilburn, na Geórgia. A primeira viu sua sombra, as outras duas não. Não seria engraçado se o inverno continuasse na Pensilvânia e a primavera iniciasse em Nova York e na Geórgia?
Ocorre que Punxsutawney, com menos de 8.000 habitantes, é considerada pelo americano como a capital meteorológica do mundo. Sua festa da marmota antecede ao ano de 1886 e os registros locais acusam que, nos anos anteriores, 95 delas viram suas sombras em 109 saídas da toca. Quando ela não olha para sua sombra, a marmota é aplaudida pela multidão e, caso contrário, é vaiada.
Afastando-se desse folclore tradicional do século XIX, atualmente, a previsão de tempo - se seco ou úmido - é feita por sofisticados sistemas hidrometeorológicos, em que a precisão predomina devido aos institutos de pesquisas dessa área. Em Bauru, por exemplo, o IPMet, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), operando numa freqüência de 2,8 gigahertz, varre uma área cujo raio atinge 200 quilômetros - fato que possibilita, com antecedência, informar mudanças climáticas em andamento.
Afinal, por que precisamos saber das mudanças meteorológicas? Para, principalmente, arar a terra, fazer a semeadura e a colheita.
A par disso, com o processo desordenado de urbanização, nasceram as favelas e as áreas de riscos a ameaçar a vida aumentaram, geralmente às margens de rios e riachos próximos da cidade. Então vêm os temporais e com eles as catástrofes. Nos grandes centros urbanos, prevenir as grandes chuvas tornou-se mais uma preocupação de defesa civil do que qualquer outra finalidade.
Antes do serviço meteorológico, como era no Brasil? Em muitos lares nossa previsão era feita por uma casinha das bruxas, com duas portas. Quando saia por uma delas, antevia a chuva, quando pela outra, o tempo bom. Seu mecanismo de funcionamento era regulado por fio de cabelo humano sensíveis à umidade, que se estendem ou encolhem, movimentando as bruxas.
As casas de bruxas não mais existem. No País do Norte, as marmotas continuarão saindo da toca e olhando ou não para sua sombra. E aqui a lavoura será ou não beneficiada pelo tempo, as enchentes serão ou não evitadas. E o curto inverno temporal nos atingirá mais uma vez. E o tempo continuará fluindo.
Irineu Azevedo Bastos é escritor, historiador e colaborador de Ju Machado Escritório de Arte