Pesca & Lazer

História de pescador: João Coronel e a terena Dovanhery


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“Nossa história de hoje vem de Avaí-SP, décadas de 20 e 30 do século passado, quando o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon estabeleceu naquele município, na margem esquerda do rio Batalha, a aldeia indígena de Araribá, inicialmente com as etnias guarani e terena, vindo posteriormente também, os kaigang.

Naquela mesma época nascia ali pertinho daquela aldeia, o João da nossa história de pescador, o qual cresceu amigo dos índios, tendo namorado inclusive com algumas moças daquela comunidade indígena.

Seu apelido de coronel veio do seu pai, que ao casar-se com filha adotiva de um coronel de verdade, passou também a ser chamado de coronel, transferindo da mesma maneira aquela patente para alguns dos seus filhos, patente esta, que no caso do João, adaptou-se tão bem que até hoje muitos dos seus parentes chegados nem sabem que o seu verdadeiro nome é João Baptista.

Naquela época, ele com seus amigos e irmãos, sendo um deles o meu pai, tinham por costume ‘fechar’ os bailes em que passavam, onde dançavam o cururu, cateretê, catira e misturavam-se até nas danças típicas dos indígenas. Mas foi pescando com os índios que o João Coronel conheceu a mais amável de todos os seus amores, a terena Dovanhery.

Ela era muito bonita, grande caçadora e pescadora, saíam os dois a percorrer grandes distâncias para alcançar não somente o rio Batalha, mas também os rios Anhumas, Jacutinga, Água da Aldeia, aventurando-se até pelas cabeceiras do Feio ou Aguapeí para caçar e pescar.

O João aprendeu com Dovanhery muitos truques do ramo, mas a sua melhor recordação vem da pescaria de traíras, quando utilizavam somente uma isca cada um, durante uma noite inteira.

Enquanto os dois se encaminhavam para o rio ou lagoa a fim de pescar, ela capturava pelo caminho apenas duas iscas, sendo uma para ela e outra para ele, podendo ser peixe ou pássaro, que passava pelo fogo antes de ir para o anzol.

Chegando na beira do rio, ela abria antes de tudo, um buraco no chão, com dimensões de acordo com o tempo que desejava ali permanecer, colocava dentro uma espécie de cesto feito de cipós, enchia-o com água, depois acendia o seu fétido palheiro de fumo índio enrolado feito corda, que além de alimentar o vício, também afugentava para bem longe os pernilongos. Somente então iniciava a sua propriamente dita pescaria.

Quando uma traíra ou taraíra, conforme ela dizia, abocanhava a sua isca, a índia puxava a sua vara sem fisgar, enquanto conduzia a sua presa bem devagar até a poça que fizera antecipado, encostava naquela água somente o rabo do peixe que se soltava e caía dentro do cesto, onde ficava preso e vivo. Assim ela repetia aquela ação durante uma noite toda sem perder a sua isca única.

No final da pescaria e com a ajuda do namorado, ela colocava aquele cesto de peixes nos seus próprios ombros e voltava para a sua aldeia, onde uma parte daqueles peixes seria transformada em alimento e a outra parte seria utilizada como moeda de troca. Foi assim que durante muito tempo os dois se amavam e pescavam, desde o anoitecer até o amanhecer de muitos e muitos dias.

Mas como tudo passa, esse amor também passou, pois segundo contam alguns amigos mais íntimos, certa vez, um grupo de índios enciumados passou um carreirão no João Coronel que levantou até poeira e depois disso ele nunca mais viu a Dovanhery.

Mas foi só baixar a poeira e ele já namorava uma outra índia guarani que se chamava Nhaqueguá, mas desta, ele pouco se lembra. Namorou ainda moças não índias, brancas, negras, pardas, solteiras e casadas, mas quem ele mais amou mesmo foi a terena Dovanhery, pois por causa dela ele continua solteiro até hoje e porque foi ela quem o iniciou nas artes de amar e pescar.”

Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias.

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