Colocado numa panela com água em ebulição, o sapo pulará fora imediatamente. Mas, numa panela com água fria sobre o fogo, o sapo permanecerá quieto, acomodando-se gradativamente à temperatura, esquentando até morrer cozido. É o caso do presidente Lula, paciente da síndrome do anfíbio, não apenas por ter sido agraciado, um dia, com o epíteto de “sapo barbudo”, dado pelo falecido Leonel Brizola, mas por ser contumaz apreciador de água quente, que borbulha numa cachola de idéias insensatas. Ao pôr a culpa dos juros altos nos acomodados glúteos de pessoas que, em sua opinião, preferem o chope e o conforto da cadeira do bar à ida a bancos para reclamar de taxas, Lula cometeu o desatino de atirar contra o próprio pé e, ainda por cima, desancar o que o seu governo propaga como sendo “o melhor produto do Brasil: o brasileiro”, mote de autoria de Câmara Cascudo.
Pior é que a impropriedade acontece no momento em que o governo do PT comemora 25 anos do famoso discurso em que Lula, encarapitado no palanque do Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, estampando a cara de João Ferrador na camiseta com o refrão “hoje eu não tô bom”, fazia a peroração: “Neste País rico e poderoso, com a décima economia do mundo, não dá para rir diante da miséria escandalosa; não dá pra rir diante dos milhões de pais e mães desempregados que não têm nem um pedaço de pão para dar aos filhos; com a falta de saúde e com centenas de pessoas fazendo filas nos hospitais, muitas das quais morrem nos seus corredores, sem atenção digna e sem dinheiro pra comprar remédios; com milhões de crianças sem escola e com outras milhares submetidas a trabalhos mais duros que nos tempos da escravidão. Você acha que diante de tanta desgraça eu vou ter coragem pra rir?”
Lula explicava por que não conseguia rir. Lula, agora exibe largo sorriso, abrindo também sorrisos de platéias, com metáforas para explicar a miséria e os costumes.
Se pretendia se referir apenas ao “traseiro” da classe média com seu discurso, promove um desmonte na pirâmide social. Primeiro, por considerá-la apartada do povo; segundo, porque não percebe que o empobrecimento crescente desta classe torna seus elos imbricados aos fios das massas carentes. Quanto às taxas, Lula esqueceu que ele, mais do que ninguém, é responsável por juros reais de quase 13%, que dão ao Brasil o campeonato mundial da modalidade. Se o gosto de Lula pela palavra improvisada é o mesmo, o que mudou no perfil do ex-metalúrgico? Muita coisa. O patamar social, por exemplo. Da base da pirâmide, Lula saltou para o andar superior das elites. Ele pisa fundo na idéia de que, mesmo sentado na cadeira mais alta da República, não é elite política. Intitula-se um sindicalista, em “estado“ de presidente
Se milhares de desempregados continuam a não ter um pedaço de pão para dar de comer aos filhos, o sindicalista garante não ter nada a ver com isso, porque fazem parte da herança maldita. Se faltam remédios em hospitais e as filas continuam quilométricas, o sindicalista credita o problema à herança maldita. E, de maldição em maldição, o sindicalista vai fazendo oposição, enquanto o presidente se exime de responsabilidades. Se não acendeu nenhuma fogueira no inferno, Lula só pode ter feito coisas boas no céu. “Estou convencido de que, quando terminar nosso mandato, a gente poderá discutir o que aconteceu antes e depois de nossa passagem pelo governo.” O presidente acaba de fazer esta apologia de investimentos e ações nos campos da ciência, educação e agricultura familiar. Menos presidente, menos.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor da USP e consultor político