No último dia 1 de maio, o Jornal da Cidade publicou na página 25 uma matéria com o título acima. Como especialista na área de ultra-sonografia, dedicada à medicina fetal, identifiquei informações equivocadas e que certamente levarão a erros de conseqüências imprevisíveis, para jornal de tamanha importância e penetração junto à população.
Em primeiro lugar, existe uma confusão clara entre métodos de diagnóstico de síndrome de Down e métodos de rastreamento de gestantes de risco para síndrome de Down.
O diagnóstico pré-natal definitivo de síndrome de Down só pode ser realizado, até o presente, pelos métodos invasivos, ou seja, através da punção e obtenção de células fetais e estudo do cariótipo. A biópsia do vilo corial permite colher célula com relativa segurança a partir da 11.ª semana. Porém, deve ser reservada para gestantes de alto risco, pois uma das suas complicações é o abortamento. Mais tardiamente, na 15.ª semana, a coleta de líquido amniótico, procedimento mais seguro e de menores riscos de complicações, permite obter células do feto para estudo do cariótipo, porém, torna o diagnóstico mais tardio.
O rastreamento de gravidezes de maior risco para síndrome de Down e outras aberrações cromossômicas fetais atualmente é realizado rotineiramente pela combinação da idade materna, medida da translucência nucal e do osso nasal pela ultra-sonografia preferencialmente realizada na 12.ª semana da gestação. Os valores obtidos são comparados às curvas das tabelas que os correlacionam e permitem estabelecer um risco estatístico com sensibilidade próxima dos 90%. A confirmação diagnóstica, nos casos em que haja alteração, deverá ser feita pela coleta de células fetais e realização do cariótipo.
Finalmente, em relação às dosagens no sangue materno de PAPP-A (proteína plasmática A associada à gestação) e fração livre do ß-hCG, estabelece-se como idade gestacional ideal para sua coleta a 16.ª semana, diferentemente do que foi dito no artigo. Tais exames laboratoriais são caros e, quando disponíveis, isoladamente permitem suspeição de risco em apenas 50 a 70% dos afetados.
Jussara Cristina Finardi Godoy - médica especialista em diagnóstico por imagem com atuação exclusiva em ultra-sonografia - CRM 40.940 - RG 8.014.817