Auto Mercado

Muito além do rabisco

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Explicar os papéis, a importância e até onde o design está presente na indústria automotiva nacional. Esses foram os principais objetivos da palestra, realizada semana passada, no teatro “Edson Celulari”, pelo engenheiro Flávio Cavinato para alunos do curso de design industrial de uma instituição de ensino superior da cidade.

Com formação técnica em mecânica e em engenharia mecânica com especialização na área automobilística, Cavinato atuou durante anos em grandes montadoras do País, como GM e Ford, onde trabalhou no desenvolvimento de projetos da caminhonete S10, de toda a família Corsa antiga e nova, da Meriva e dos componentes da família Amazon - Fiesta, Fiesta Sedan e EcoSport. Atualmente, integra o setor de pós-vendas da regional da Ford em Bauru.

Em entrevista ao Auto-Mercado & Cia, Cavinato desmistifica a idéia de que o design automotivo limita-se ao ato de desenhar o visual dos carros, além de explicar os desafios atuais do setor durante o desenvolvimento de um veículo e sua importância no momento da comercialização. Confira os principais trechos:

AutoMercado & Cia – Até onde o design é utilizado na indústria automobilística?

Cavinato - O design não é só aquele desenho que você faz achando que sua idéia é mirabolante e vai ser sucesso. Há muito mais coisas além disso, pois o design é só a ‘casca’ e temos de fazer o que há por dentro, o que não deixa de ser design. Um motor, por exemplo. Dentro dele, há várias peças que têm de ser desenhadas, encaixando-as umas às outras a fim de caberem dentro daquele carro imaginado desde os primeiros rabiscos.

AutoMercado & Cia – Então o design vai muito além dos simples desenhos nos papéis ou computadores?

Cavinato – É isso. Normalmente, todos trabalham juntos, desde o departamento de estilo até a engenharia, pois não adianta o design inventar um carro onde não se consegue colocar uma pessoa ou um motor dentro. O início de tudo é pensar em qual segmento esse carro vai atender, se é um popular, luxo ou uma van. Em cima disso, define-se seu visual e encaixa-se tudo lá dentro para se ter uma noção do tamanho do motor, das pessoas e da capacidade de bagagem. Finalmente, em cima dessas características e rabiscos é que o estilo do carro é definido.

AutoMercado & Cia - O que todo design tem de levar em conta para não desenhar um carro ‘feio’?

Cavinato - O que é mandatório em todo projeto de design é a imaginação e a legislação. Não adianta ter uma grande inspiração sem atender requerimentos legais que todo carro deve ter, como as partes de iluminação, pára-choques, segurança. O design fica amarrado por alguns itens obrigatórios por lei e não consegue fugir do básico. Depois disso é só imaginação.

AutoMercado & Cia - Então não há espaço para ousadias de design na indústria automobilística atual?

Cavinato - Espaço para ousar há e muito. Só que para se conseguir isso outras áreas precisam dar novas tecnologias para o designer trabalhar. Isso porque o design de um carro começa a ser feito três, quatro e até cinco anos antes dele ser lançado. Por isso, o designer precisa estar sempre dois passos à frente, não um, para saber, por exemplo, qual tipo de farol, pára-choque ou pneu estará disponível no mercado na oportunidade em que o automóvel estiver sendo lançado.

AutoMercado & Cia - Até que ponto o design vende carro?

Cavinato - Design é o que mais vende carro. A primeira coisa que muitos vêem primeiro em um carro é seu estilo. Só depois é que as pessoas se interessam em saber qual seu motor, tipo de banco e os opcionais oferecidos.

AutoMercado & Cia - Isso comprova o fato apontado pelas montadoras de que as pessoas compram o carro mais pela emoção do que pela razão?

Cavinato - No mercado brasileiro, sim. Mas isso está mudando e quem está surpreendendo são as mulheres. Elas hoje estão procurando saber muito o que é o carro como um todo, não preocupando-se apenas com o estilo bonitinho. Elas querem facilidade, porta-trecos, carros confortáveis e ergonomicamente bons para elas, mais altos e com maior campo de visão.

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