Correr, saltar, rir, discutir as regras do jogo, compartilhar, subir em árvores... Provavelmente, nunca o brincar tenha sido colocado tanto em evidência como no momento atual. No mundo inteiro, discute-se a importância do brincar na formação da criança e, conseqüentemente, no adulto que irá assumir, futuramente, o mercado de trabalho, os cargos de liderança. Há 8 anos, o Brasil conta com a Associação Brasileira pelo Direito ao Brincar, entidade filiada à International Association for the Child’s Right to Play (IPA) e ligada à Unicef.
A presidente e fundadora da IPA no Brasil, assistente social Marilena Flores Martins, reflete sobre a necessidade de se assegurar o direito da criança e do jovem ao brincar, à cultura e ao esporte, e compara as necessidades nacionais com a tendência dos países desenvolvidos, onde o número de idosos ultrapassa o de crianças e jovens, o que, de certa forma, contribuiu para que as nações voltassem seu olhar à formação desse público para garantir seus direitos.
Na análise da presidente da IPA, os pesquisadores na área de desenvolvimento humano se apropriaram do conceito físico da resiliência - propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica - para exemplificar a maneira como o brincar interfere na formação do indivíduo.
A assistente social lembra, ainda, que 28 de maio é o Dia Mundial do Brincar. Confira a seguir os principais trechos da entrevista:
Jornal da Cidade - Como sugiu a entidade em defesa do direito da criança e quais as formas de atuação na sociedade? Marilena Flores Martins - A IPA é uma organização internacional, que foi fundada na Dinamarca depois da guerra, nos anos 50, por membros da comunidade, pais, planejadores e arquitetos, que foram reconstruir os espaços de brincar destruídos pela guerra. Eles se reuniram e começaram a reconstruir. A notícia se espalhou pela Europa e Estados Unidos. Em 1997, eu fundei o braço brasileiro da IPA (International Association for the Child’s Right to Play), a Associação Internacional pelo Direito de Brincar. No Brasil é Associação Brasileira pelo Direito ao Brincar, que agora o nome vai ser mudado, será Associação Brasileira pelo Direito ao Brincar, à Cultura e ao Esporte. A IPA colocou na Convenção dos Direitos da Criança da ONU (Organização das Nações Unidas) o artigo 31, que fala que toda criança tem direito a brincar livremente, a participar das atividades esportivas, lúdicas e culturais adequadas à sua idade. E fala também que os países signatários da Convenção - e o Brasil é um deles - têm a obrigação de garantir esse direito.
JC - Atualmente, qual a principal participação da IPA brasileira? Marilena - Agora mesmo a IPA está fazendo parte do Comitê Pelo Desarmamento Infantil, que reúne várias entidades em São Paulo, inclusive a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que se reúnem na Assembléia Legislativa. No dia 28 de maio é o Dia Mundial do Brincar e vão acontecer alguns eventos aqui em São Paulo por esse Comitê, justamente para despertar e chamar a atenção da mídia para a questão do brincar. Vocês podem fazer um evento aí em Bauru, também.
JC - O que é o brincar? Qual é a importância do brincar na vida das pessoas? O adulto que não brincou na infância é um adulto diferente? Marilena - O brincar faz parte da evolução do ser humano. Se você perceber, os filhotes de animais brincam. Brincar é uma preparação para a vida. É parte inerente do desenvolvimento humano, é como comer, dormir, tomar banho. É uma necessidade básica fundamental. A criança brinca primeiro com o próprio corpo, depois ela brinca com o corpo da mãe, ela pega, aperta, espreme, ela puxa o cabelo da mãe. Tudo isso é uma forma dela conhecer o outro. Depois ela começa a pôr coisas na boca, experimentar. O brincar é uma grande pesquisa que o ser humano faz para se desenvolver. Manter uma criança sem estímulo e sem brincadeira é impedir que ela se desenvolva. Principalmente até os 18 meses, fase crucial onde a criança se desenvolve mais rapidamente, o sistema nervoso, formam-se os neurônios, as sinapses cerebrais. Depois é importante para a socialização. Se a criança vai jogar um jogo, o outro fala ‘agora não é sua vez, agora é minha vez’. Ela aprende os limites muito mais do que se você ficar falando mil vezes. Depois ela desenvolve toda a área motora, jogando bola, chutando, correndo, saltando, pulando, escorregando, a criança está aprendendo. A criança que não brinca vai com muito menos bagagem e muito mais frágil para a vida adulta do que a criança que brinca.
JC - O que é o conceito de resiliência? Como pode interferir na formação do adulto? Marilena - Até 7 ou 8 anos, os psicólogos e especialistas apontam que se formam os pilares da personalidade. E agora, mais recentemente, eles estão falando na resiliência. É um conceito relativamente novo na área de desenvolvimento humano. É antigo na física, que é uma propriedade que um corpo tem - mesmo submetido a uma grande pressão externa - de, quando essa pressão é retirada, retornar ao estado original. Isso acontece com as pessoas. As pessoas que são resilientes podem sofrer muitas pressões, muitas adversidades. Os pilares da resiliência são a aceitação incondicional - uma criança que foi bem aceita, que tem facilidade de se relacionar com os outros -, uma criança que tem humor, que tem criatividade, auto-estima - ela gosta de si -, ela só consegue gostar do outro quando gosta de si próprio. Então, essas pessoas são mais resilientes, elas agüentam mais os embates da vida. Um exemplo recente é do papa João Paulo II. Se você olhar a história de vida dele - não o conheci -, aos 6 anos perdeu a mãe e aos 9 anos perdeu o pai, na guerra. Mas até essa fase, ele teve uma mãe amorosa, uma família estruturada, que o apoiava. Brincou bastante, brincava na neve, esquiava, praticava esporte. Ele se tornou uma pessoa resiliente e chegou a ser um líder mundial. Apesar de ter tido uma infância sofrida.
JC - As crianças brincam menos? Mudou a relação com a brincadeira? Marilena - Eu diria assim, o brincar é tão importante que a gente chama de fome, ou satisfaz ou satisfaz, não tem jeito. É tão necessário que ela brinque, que ela brinca com qualquer coisa. Eu não diria que brincam menos, elas estão brincando mais contidas. Por exemplo, as crianças que vivem em cidades grandes têm medo de ir para a rua, os pais não deixam, não tem segurança. As cidades não são pensadas para as crianças. Quando se planeja uma cidade, um bairro, um loteamento, um condomínio, ou seja lá o quê, dificilmente alguém pergunta para um grupo de crianças o que elas gostariam que tivesse naquele local. Eu nunca vi isso. Já vi isso na Europa, na Grã-Bretanha, em que as pessoas até antes de contratar um professor, ele passa por uma entrevista com as crianças. Eu vi isso lá na Escócia. Agora no Brasil, acho difícil ouvir as crianças. As crianças estão brincando menos por conta dos adultos que não estão pensando nelas.
JC - Mesmo sem a liberdade, ela busca brincar onde estiver... Marilena - É como água, se não vai por um lado, vai por outro. Aí acaba tendo algumas distorções. Essas brincadeiras violentas que a gente vê na escola, de luta... No fundo é uma vontade de brincar e uma raiva de não poder brincar. Ele acaba descarregando no coleguinha mais fraco. Está aumentando muito isso que os americanos chamam de ‘bullying’ na escola. É ficar na escola atazanando um colega, ou porque ele é gordo, ou porque ele é baixo, alto, feio, magro. Eles falam: ‘não, é brincadeira’. Não, isso é uma distorção do sentido do brincar. O brincar é ter humor. Você rir dos seus próprios defeitos é sinal de que você tem um bom humor, mas você rir e caçoar do defeito alheio, daquilo que você acha que é defeito no outro, aí já toma um sentido mais maldoso. Eu diria que é um brincar perverso. Brincar não é torturar o outro para você dar risada, isso é sadismo, não é brincadeira. Isso acontece porque quando as pessoas não têm a oportunidade de brincar livremente, elas acabam brincando de uma forma contida e pode gerar uma distorção.
JC - Como é o direito da criança brincar no Brasil e no mundo? Marilena - No Brasil, as pessoas, os planejadores, os gestores públicos ainda não incorporaram que a criança é uma prioridade. Em países onde tem menos crianças, como na Europa, por exemplo, eles dão uma prioridade muito grande à criança. Lá, o direito de brincar é muito respeitado. Na Europa, na Escandinávia, na Austrália, as crianças participam. Eu já vi o projeto arquitetônico de uma escola na Austrália em que se formou um comitê de crianças e jovens que trabalharam juntos com a arquiteta dizendo o que eles precisavam. Quando um arquiteto vai fazer uma casa para alguém, ele senta com a pessoa que vai usar a casa. Agora, quando você vai fazer para criança, alguém pergunta para a criança o que ela quer? O que ela precisa? O que ela gostaria? Eu não conheço, no Brasil, se existem essas experiências. Eu conheço na Europa. Nos Estados Unidos estão começando e no Japão também já existe. Na Itália, por exemplo, existe uma prefeitura que paga para os casais que querem ter filhos. Agora no Brasil, o que está acontecendo? Nós estamos envelhecendo e o número de idosos vai aumentar muito nos próximos 10, 15 anos, em relação ao número de crianças e jovens. Em menos de 20 anos, o Brasil também será um país de mais velhos do que crianças e jovens. Como está a alma das crianças brasileiras? Nós estamos ouvindo os anseios delas? Estamos governando para elas? É isso que temos que fazer.
JC - E os pais? Como perceber isso e mudar a forma como estão conduzindo a formação das crianças? Marilena - Eles acham que brincar é perda de tempo. Eu acho que combinando com a criança, é como fazer uma agenda. Se você trabalha em um local e tem um superior hierárquico, porque os pais são hierarquicamente superiores às crianças, não podem estar no mesmo nível, ele não é irmão do filho, ele é pai e mãe, com o ônus e o bônus disso tudo. Tem gente que prefere não impor limites e tratar o filho como amiguinho e isso é péssimo, porque a criança precisa de estrutura e quem dá a estrutura é pai e mãe. Agora, como o chefe, ele faz a sua agenda? Não. Então, fazem juntos. Às vezes os pais tratam os filhos como se eles fossem inimigos e não amigos. Em primeiro lugar considerar que o filho é seu melhor amigo e em segundo lugar ouvir. Olhar no olho e dizer ‘vem cá, vamos sentar. O que você quer fazer?’. Aí, se ele disser: ‘Eu quero jogar bola das 8 da manhã ao meio-dia’. ‘Não vai dar, porque, a não ser que você seja um futuro Ronaldinho, não dá para jogar bola esse tempo todo. Veja, que horário você acha que estuda e que você joga bola?’. Combine. As crianças têm muito mais poder de discernimento do que se imagina. Faça contratos, pequenos contratos, não assim: ‘este ano inteiro’. A criança não tem essa noção de tempo, mas se você disser: ‘neste mês, nós vamos fazer assim, tá bom? Segunda, quarta e sexta você brinca, joga bola, vai ao clube, e terça e quinta você vai no inglês. Vamos combinar isso?’ Tudo o que é combinado antes não é caro. Então, ter um pouco de tempo, de tolerância, ouvir o filho é ter amor e afeto, porque quando você ama a outra pessoa você vai fazer o que é melhor para ela. É ouvir o outro e deixar que a criança participe dessa agenda que, afinal de contas, é a vida dela. Criança tem vida própria, não é um fantoche, não é uma réplica, um clone dos pais. Ela é uma pessoa com necessidades, desejos, sonhos, ansiedades e medos.
JC - E os brinquedos? Meninos e meninas podem compartilhá-los? Boneca é coisa de menino? Marilena - Compartilhar faz parte não só da brincadeira, mas também da vida social. Não somos seres solitários. Tudo nós compartilhamos: com os nossos semelhantes, com a natureza, com o cosmos. Para o bem e para o mal. Brincar imita a vida, portanto, também é compartilhado. Os brinquedos de representação, como por exemplo as bonecas, fazem parte do universo infantil. Por esse motivo, meninos e meninas podem e devem brincar com bonecas e bonecos, que representam os humanos na sua vida e favorecerão o desempenho dos papéis familiares no futuro.
JC - E a “brincadeira†no computador? Até onde esses momentos vidrados nos games prejudicam a formação da criança? Marilena - Quanto ao excesso de utilização do computador e do videogame por parte das crianças, é claro que as afeta negativamente como qualquer outro excesso. Não podemos esquecer que a tecnologia é importante e faz parte das nossas vidas, mas não pode ocupar o lugar da convivência com outros seres humanos, sob pena de estarmos robotizando nossas crianças. Isso acaba sendo uma incoerência, uma vez que o mercado de trabalho exige cada vez mais pessoas equilibradas emocionalmente, polivalentes, criativas e com capacidade de viver e trabalhar em grupo. Todas essas características podem ser adquiridas através do ato de brincar, sendo sua efetividade diretamente proporcional ao tempo gasto com as brincadeiras e atividades grupais das crianças. Saiba mais sobre o assunto no site da IPA no Brasil: www.ipa-br.org.br.