Geral

Histórias maternas surpreendem

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 10 min

Histórias simples, comuns, mas carregadas de emoção. Assim foram definidas as mais de 300 cartas enviadas para o concurso “Mães e Filhos, a melhor história do nosso mundo” organizado pelo Jornal da Cidade em comemoração ao Dia das Mães.

As três melhores histórias, na opinião de escritores e jornalistas bauruenses, estão publicadas ao lado. No decorrer deste mês, outras 15 também serão divulgadas nas páginas do jornal. A série começa na próxima terça-feira.

Entre as escolhidas, estão histórias contadas por filhos e também por maridos, reconhecendo o importante papel que as mães desempenham dentro de casa.

Inicialmente, seriam publicadas dez cartas, mas a quantidade e qualidade das histórias surpreenderam o corpo de jurados e os organizadores do concurso. Desta forma, decidiu-se incluir mais oito cartas à idéia original.

De acordo com a jornalista Mila Fabris, da agência Image Maker, uma das idealizadoras do concurso, a maior parte das histórias foi enviada pelas mães.

Na avaliação dela, os filhos, enquanto crianças, não percebem com tanta exatidão a importância da mãe na vida deles. Por outro lado, a mãe desde cedo tem plena consciência da força que o filho exerce sobre ela e procura dividir essa experiência com outras pessoas, segundo Mila.

Foi pensando justamente desta forma que nasceu a idéia do concurso. Segundo Mila, o objetivo era justamente fazer com que as pessoas compartilhassem suas histórias de vida.

“Nós acreditamos que isso está se perdendo. O mundo moderno perdeu muito do costume que as pessoas tinham de sentar e dividir suas histórias, compartilhando os problemas e as emoções. Isso faz muita falta na vida das pessoas”, declara. “O grande numero de histórias que recebemos confirma isso.”

Histórias premiadas

Ontem, as três melhores histórias foram premiadas pelo JC. A vencedora entre as mais de 300 enviadas para o concurso, na avaliação do júri, foi escrita por Paula Anselmo Fioratti de Oliveira, 37 anos, mãe de João Vitor, 8 anos.

A narrativa sobre as dificuldades (e também alegrias) por ter um menino hiperativo comoveu os julgadores. Também portadora do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Paula disse que sofreu bastante com isso enquanto criança. Mas o sofrimento acabou servindo como lição de como deveria agir com o filho, pois entende perfeitamente o que se passa com ele.

“Eu sofri muito na minha infância, porque as pessoas me tratavam de forma estranha, fui mandada para o psicólogo, fui expulsa duas vezes da escola. Foi muito difícil”, relembra.

O TDAH é uma deficiência do cérebro que não fabrica serotonina na quantidade suficiente para controlar alguns impulsos. “Se você tem um filho deficiente visual, auditivo ou motor, as pessoas te ajudam. Já o hiperativo é uma pessoa excluída. Ninguém quer ficar perto”, compara.

No entanto, como uma espécie de consolo, Paula lembra que Einstein, Beethoven e Mozart também eram hiperativos. “Mas não é fácil”.

Outra história que agradou foi a de Marlei Augusto Gimenez, 50 anos, moradora no distrito de Jacuba, em Arealva. Na carta, ela relata sua experiência ao ficar longe da filha pela primeira vez. Foram 15 dias em um campo de férias com outras crianças da mesma idade.

Para saber se a filha estaria bem, elas combinaram alguns códigos de improviso, que seriam colocados nas cartas enquanto a menina estivesse fora. Os códigos só foram utilizados 19 anos mais tarde.

Atualmente, a filha mora no Japão, depois de passar pelo Caribe e México na companhia do marido, que é jogador de futebol. Só houve um contato por carta. Porque ele era especial e foi enviado um mês depois dela ter deixado o País.

Desde então, os contatos são feitos por telefone ou por e-mail. As visitas acontecem apenas no fim de cada ano.

“Quando abri a carta foi a maior emoção. Voltei 19 anos no tempo”, conta Marlei.

A história contada por Maria Heloísa de Mello Crivelli, 40 anos, é mais poética. Ela narra o nascimento dos dois filhos na época das flores. Segundo ela, nada foi programado, mas apenas uma coincidência.

A família continua morando na mesma casa e todos os anos, quando os filhos fazem aniversário, o caminho volta a ficar florido. A relação entre o nascimento dos filhos com a chegada da primavera foi uma forma que ela encontrou de criar um ambiente de encantamento. “São essas pequenas histórias que criam cumplicidade entre pais e filhos”, afirma Maria Heloisa.

1.º lugar

Sempre LIGADOS!

Desde pequena, sempre quis ser mãe de um menino. Lembro de um Natal que pedi de presente o Manequinho e ganhei uma Papinha! Fiquei tão brava que a Papinha voou longe!!! Mas Deus foi MARAVILHOSO comigo e no dia 9 de setembro de 1996 me deu o maior presente que eu poderia ganhar - e bota MAIOR nisto -, um meninão com 52 centímetros de comprimento e 4,250 quilos. Desde o início da gravidez ele não parava...o médico mal conseguia fazer a ultra-sonografia de tanto que se mexia...tinha até soluços dentro da minha barriga...Mas que delícia de gravidez! Nasceu...com 3 meses já queria sentar, com 10 começou a andar e não parou mais... Eu logo percebi que o João Vitor era além do que se esperava. A história se repetia. Quando ele completou 6 anos, o psicólogo da escola onde ele estuda solicitou alguns testes e consulta com neuropediatra. Não deu outra, o João é portador de TDAH - Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Quando soube não sabia se chorava, gritava... Mas, orei. Pedi a Deus que me desse sabedoria e muita paciência a mim e ao meu marido. Sabe por quê? Porque conheço esta história... Me vieram à mente a expulsão de um colégio, as advertências, os problemas de relacionamento, a depressão, os complexos. Como sofri!!!...Também sou portadora de TDAH. Mas, graças a Deus, hoje a história é diferente. Existem livros, as escolas estão mais bem preparadas, os médicos conhecem melhor o funcionamento destas “mentes inquietas”. Eu e o João nos tornamos cúmplices. Nas nossas histórias a Chapeuzinho Vermelho é punk, os três porquinhos são filhos desnaturados e as musiquinhas sempre acabam por virar rap! Eu conheço meu filho pelo olhar. Entendo sua inquietude, sua falta de interesse em algumas coisas e ele vê em mim seu porto seguro. O João é meu maior professor. Com ele aprendo a ser paciente e tolerante. Ganho novo ânimo pra viver. Todo dia é um dia novo! Existem alguns problemas que acompanham o TDAH que são muito difíceis de se superar, entender e aceitar. Mas cada nova dificuldade me faz buscar mais, querer mais, compartilhar mais. O João conhece cada dificuldade que tem e sempre busca em mim e no pai o conforto e a solução para os seus problemas. Sei que filhos especiais têm mães especiais. E o meu filho é único! Conviver com hiperativos pode não ser fácil, mas tenha certeza que nunca irá faltar movimento, alegria e novidade. Hoje o João tem 8 anos, está na 3ª série no Colégio Batista. Ele quer ser médico, piloto de avião, militar, goleiro, cantor de rock, joga futebol, basquete, piano, quer estudar bateria... Eu tenho 37, sou gerente de banco, economista, mãe, dona de casa, professora de escola dominical, estudo, danço, canto... Sem dúvida, ser mãe é minha maior realização. Juntos, aprendemos que hiperatividade não é problema, não é doença, é presente! Basta a gente aprender a controlar a voltagem! Desligar, só pra dormir...

Paula Anselmo Fioratti De Oliveira

2.º lugar

Código Maternal

No ano de 1983, minha filha Rosana Flávia, de apenas 7 anos, foi sorteada entre milhares de crianças para participar de um Campo de Férias, que a empresa, na qual meu marido trabalhava, oferecia para os filhos dos funcionários. À tarde, quando meu marido chegou em casa com a notícia, ela ficou radiante e eu ao contrário, apreensiva, afinal seriam 15 dias, a nossa primeira separação e neste período o nosso único contato seria apenas através de carta. Ela adorou, férias só com crianças, muitas brincadeiras, monitoras... estava decidida, nem parecia a minha Flavinha, tão pequenina, tão dependente, com tantos medos. O pai encarregou-se de encorajá-la, enquanto eu ainda tinha a esperança que ela desistiria na última hora. A poucos dias da viagem, encontrei a esposa de um funcionário da empresa e ela me contou que o filho já tinha participado do Campo de Férias e chorado muito de saudades, e que como nas cartas ele escrevia que queria voltar para casa e que estava chorando, os monitores não as enviavam, pois o objetivo era manter as crianças pelo tempo determinado, como em um “Big Brother”, onde o prêmio era a independência. Meu coração de mãe ficou apertado. E aí, como eu ficaria sem a minha menina? E se ela chorasse? Cheguei em casa e tentei convencê-la a desistir da viagem, mas não teve como, ela estava decidida. Então, como mãe superprotetora, combinamos que se ela estivesse triste e querendo voltar para casa, não escreveria isso na carta, só desenharia no final da carta um céu escuro, sem sol, lua ou estrelas. Esperei ansiosa pelas cartas, nenhuma continha o nosso código. Que alívio! Ela estava feliz. Após 19 anos, minha menina casou-se e foi morar no Exterior, agora a distância era infinitamente maior, assim como o tempo. Qual não foi minha surpresa quando, na primeira carta que recebi dela, tinha um desenho: um céu de nuvens escuras, sem estrelas, mas com um sol de brilho intenso. Então, tive a certeza que ela estava com saudades, mas muito feliz.

Marlei Augusto Gimenez

3.º lugar

Sempre que setembro chega...

Amor de mãe é algo engraçado. Não há parâmetro para medi-lo. Começa mesmo antes do filho nascer. Suspeita-se que está grávida e já explode dentro da gente o tal do amor maternal. Não tenho nenhuma história extraordinária para contar. Minha história, aliás, é bastante singela. Tenho dois filhos – um casal – e costumo contar-lhes a mesma história, todo ano, quando o aniversário de ambos, que é em setembro, se aproxima. Em 1994, quando eu estava grávida do Gustavo, passava diariamente pela avenida Otávio Pinheiro Brisola. Sempre observava as árvores, imaginando que, quando elas começassem a florescer é porque se aproximava a hora do meu bebê chegar. E assim foi. Em meados de setembro, como que anunciando o nascimento que se aproximava, a avenida ficou esplêndida, toda florida de ipês brancos e amarelos, um mais lindo do que o outro! A emoção tomou conta de mim! Foi como um presente da natureza e o Gustavo nasceu aos 27 de setembro. Não foi diferente com a minha filha, dois anos depois. Seu nascimento também era aguardado para o mês de setembro, no início da primavera. Logo no início do mês, timidamente, as flores começaram a surgir. Eu as procurava avidamente; até que um dia, como se todas as árvores tivessem combinado um concerto, a avenida explodiu em flores de todas as cores e aromas; a quantidade era tanta que as árvores, sobrecarregadas, não as suportavam, e as flores iam despencando, formando um tapete colorido no chão. Era chegada a hora. E nasceu a Juliana. Todo ano, quando a primavera se aproxima e as árvores florescem, eu digo aos meus filhos que a natureza está em festa porque o aniversário deles se aproxima. É o presente que Deus lhes manda. É a minha maneira de colocar um pouco de poesia na memória que eles terão da infância. Creio que por muito tempo, quando os ipês florescerem na primavera, eles se lembrarão com doçura desses momentos de carinho entre a gente. Mãe é isso. Se a gente pudesse, jamais permitiria que os filhos tivessem que enfrentar o mundo tão conturbado que existe por aí afora. Mãe é isso. Se a gente pudesse, enchia de flores os caminhos dos filhos...

Maria Heloisa de Mello Crivelli

Comentários

Comentários