Cultura

Sobre mundos: Amor de mãe

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Como em todas as manhãs, o lenhador saiu para caminhar pela floresta em busca de boa lenha. Em um determinado momento, o homem encontrou, para a sua surpresa, a morte. Curioso, o lenhador perguntou o que ela fazia naquela região. Com a frieza de sempre, a morte respondeu: “Eu estou indo para sua casa! Hoje eu tenho a missão de levar o seu filho!” O lenhador ficou apavorado e procurou argumentar: “Meu filho? Não faça isso, morte! Meu filho é muito novo para morrer. Ele ainda tem uma vida inteirinha pela frente”. A morte, relutante, fez apenas um sinal negativo com a cabeça.

Foi então que o lenhador resolveu negociar: “Quanto tempo de vida eu ainda tenho?” A morte consultou sua agenda e respondeu: “cinqüenta anos!” “Vamos fazer o seguinte...”, continuou o lenhador, “eu dou para você metade da vida que ainda tenho, se você não levar meu filho!” “Metade?”, respondeu a morte com certo interesse, “Bem, eu vou pensar sobre o assunto. Prometo”, e desapareceu.

No final do dia, o lenhador retornou para casa e ao se aproximar logo avistou, com grande alívio, o filho que vinha em sua direção. O menino se aproximou e comunicou ao pai: “Pai, a mãe morreu!” O lenhador ficou enfurecido. Correu à floresta e gritou pela morte. Esta, então, apareceu. O lenhador reclamou dizendo: “Morte, você não me disse nada sobre minha mulher! Como você pode levá-la?”.

A morte, então, se explicou: “Eu pensei sobre a tua oferta. Mas quando cheguei a sua casa, sua esposa me fez uma proposta melhor. Enquanto você ofereceu metade de teus anos de vida ela ofereceu sua vida inteira!”

Nós aumentamos nossa capacidade de amar à medida em que somos amados. Todo ser humano precisa de carinho, aconchego, amor, principalmente nos primeiros anos de vida. O ser humano, já desde sua concepção, necessita perceber que é desejado, aceito e amado. A esta acolhida, este sentimento de querer bem, costumamos chamar de “amor materno”. Este é a base segura para o nosso desenvolvimento como ser humano e de nossa capacidade de amar.

Caso a criança não receba este amor da mulher que a gerou, ela o buscará em alguma outra pessoa ou em algum outro ser. Muitas vezes esta busca permanece por toda a vida. A necessidade do amor materno está tão presente em nossa alma que já na pré-história, no período Neolítico, o homem cultuava, como uma deusa, a figura da mãe com o filho nos braços. Na Antigüidade, o amor materno e a terra eram vistos como elementos fundamentais para a vida. Esta constatação fez com que os dois elementos fossem fundidos em uma única figura: a “mãe-terra”, que é fertilizada pela chuva e pela semeadura, garantindo, assim, a sobrevivência de seus filhos.

Na tradição bíblica, a terra também é mãe da qual surge o homem. Este é modelado por Deus com a argila do solo. O próprio nome Adão vem da palavra hebraica Adam, Adamah que significa: aquele que vem do solo. Em sua morte, o ser humano deve retornar, pelo menos na maioria das culturas, para o ceio da mãe-terra, já que ele é “adam”. No império Romano, a terra era também venerada como mãe (telus-mater). Todo recém-nascido era imediatamente colocado em contato com o solo, como sinal de agradecimento à mãe-terra. Os hebreus, antes de tornarem-se monoteístas, adoravam não somente Javé, mas também a deusa Aschera, a mulher de Javé e mãe dos homens. Os egípcios cultuavam a deusa Isis, mãe de Horus e dos seres humanos.

Já no início da Era cristã, a figura de Maria, mãe de Jesus, é venerada também como mãe dos homens. Maria é apresentada tanto com o menino Jesus nos braços como com o filho morto em seu colo (“Pietá”).

Nestas duas imagens de Maria está simbolizado o desejo do homem de ser acompanhado pelo amor materno do nascimento até sua morte. Na modernidade, o próprio Deus deixa de ser visto somente como pai, e seu amor maternal é redescoberto. “Deus é mãe”, afirmou, com muita sabedoria, o papa João Paulo I.

O amor materno não marca somente a nossa alma primitiva, mas é o elemento que define a figura da mãe. Mãe não é somente aquela que gera, concebe, carrega em seu seio e dá à luz a uma criança, mas principalmente a pessoa que cuida deste novo ser, com amor e atenção, preparando-o durante sua infância e adolescência para a vida adulta. Mãe define-se basicamente pelo amor materno, ou seja, é a pessoa capaz de amar alguém maternalmente. Este tipo de amor é caracterizado pelo profundo desejo de que o outro viva. Para Agostinho, amar significa: eu quero que você seja (amo: volo ut sis). Toda mãe, ou toda pessoa que ama maternalmente, deseja que o outro tenha vida e o aceita exatamente como ele é ou deseja ser. Quem possui a alegria de receber este amor torna-se seguro para buscar sua felicidade e sensível para a felicidade dos outros. Desejo a todos que possuem a capacidade de amar maternalmente as Bênçãos do Deus da Vida!

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