Ser

Vocação para a solidariedade

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 6 min

Aos 96 anos de idade completados no mês passado, Sebastião Paiva, ou “seo” Paiva - como é carinhosamente chamado pelos amigos e colaboradores -, é um dos raros exemplos de dedicação exclusiva ao próximo. Há sete décadas construiu e ajudou a manter um albergue em Dois Córregos.

Em 1942, passou a prestar serviços aos necessitados no Lar dos Desamparados e no Centro Espírita Amor e Caridade, em Bauru. Quatro anos depois, fundou a Sociedade Beneficente Cristã, que atende pessoas carentes e deficientes mentais, e ajudou a construir mais de 100 moradias para famílias pobres da cidade.

A vocação para atender ao próximo é reflexo da própria infância e juventude vivida pelo “seo” Paiva. Nascido em 8 de abril de 1909, em Bebedouro, Interior de São Paulo, ficou órfão de pai aos 6 anos. Passou a morar com a mãe e os irmãos na área rural da cidade até os 10 anos, quando a família se mudou para a zona urbana.

Desde essa época, enfrentando graves dificuldades financeiras, senhor Paiva ajudava a mãe, que trabalhava como lavadeira, a transportar roupas dos fregueses. Para contribuir com o sustento da família, começou a trabalhar muito cedo. Aos 12 anos foi contratado como telegrafista pela Companhia Paulista de Estrada de Ferro, e depois de ocupar diversas funções, se aposentou em 1952. Durante toda a vida profissional, sempre reservou grande parte de seu tempo ao voluntariado.

Como toda dedicação tem seu preço, “seo” Paiva optou por não casar ou ter filhos. “Eu vivo para os outros. (...) Meu objetivo é sempre atender”, afirma. Apesar da idade avançada, ele continua com a mesma garra para trabalhar pelos pobres. Reagiu com coragem ao anúncio de fechamento do Centro de Tratamento e Reabilitação em Saúde Mental Sebastião Paiva, que deverá ser desativado até junho. Embora tenha sido sinônimo de tristeza, o fato não o desanimou.

Presidente de honra da Sociedade Beneficente Cristã, faz questão de acompanhar de perto a rotina da entidade e prestar atendimento e aconselhamento espiritual. Para isso, mora em um modesto cômodo da instituição e afirma estar sempre pronto a atender os carentes, a qualquer hora do dia ou da noite.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, “seo” Paiva revelou como mantém a força para continuar realizando seu trabalho social. Seus sonhos e sua trajetória, entre outros assuntos, podem ser compartilhados a seguir.

Jornal da Cidade - Como o senhor descobriu a vocação para ajudar os pobres?

Sebastião Paiva - Eu nasci na pobreza. Aos 6 anos de idade fiquei órfão de pai e passei muita fome porque morava longe da cidade, na área rural. Eu vivi a fome, não dormia de noite porque não tinha cobertor. Isso gravou em mim e cada vez que vejo uma família pobre me lembro de quando era criança e passava fome. Desde os 20 anos eu já cuidava dos pobres. Me dispus a fazer isso.

JC - Foi por esse motivo que resolveu fundar a Sociedade Beneficente Cristã?

Paiva - Sim. Existia muita gente em situação difícil, enfrentando a fome e a falta de moradia. Para isso, uma das primeiras coisas que fiz foi construir casas. Temos 120 casas que são ocupadas por famílias pobres, algumas de tijolo, outras de madeira. Estamos funcionando desde 1946, nesse tempo todo trabalhando e cuidando do povo. Estou sempre ajudando. Com os voluntários, levamos cestas básicas em domicílio, por exemplo. Há muita fome e a cidade é muito grande.

JC - Como o senhor reage ao fechamento do Centro de Tratamento e Reabilitação em Saúde Mental Sebastião Paiva, anunciado em março deste ano?

Paiva - O que está fechando é o hospital, que foi construído há 40 anos porque não existiam hospitais perto. Hoje, existem hospitais psiquiátricos em Garça, Marília, Jaú, Araraquara e Lins. Acho que não é preciso mais do nosso.

JC - O senhor sempre dedicou grande parte de sua vida às obras de caridade. Nunca pensou em se casar ou ter filhos?

Paiva - Não. Porque sempre me propus a cuidar dos indigentes. Se eu casasse teria que cuidar da mulher e dos meus filhos. Então não dá. Namorar, casar, ter filhos, ser feliz, todo mundo tem esse ideal, que é justo. Mas comigo foi diferente, porque eu sempre lembrava do passado... Passar o dia com fome e dormir à noite com frio é um negócio sério. É preciso passar um dia inteiro em jejum para ter noção do que é a fome. Então resolvi ajudar e fazer isso a minha vida toda.

JC - Como é seu dia-a-dia?

Paiva - Eu sempre tive um espírito ativo, eu não parava. Quando era moço, tinha afazeres o dia inteiro. Hoje não tenho mais uma vida tão ativa por causa da minha idade. Mas eu acordo muito cedo, vejo os jornais, oriento as atividades e aconselho os colaboradores da sociedade.

JC - Sobra tempo para férias?

Paiva - Não, porque o atendimento é realizado na instituição e precisamos estar sempre em atividade. Em uma ocasião, por exemplo, me chamaram para atender uma mulher com seis filhos, um deles de colo. Ela veio do Amazonas para Bauru porque estava passando fome. Aqui aparece sempre gente de todos os lugares, geralmente do Paraná e Mato Grosso. Nós nos tornamos conhecidos. Desde antigamente, quando se achava alguém na rua, se encaminhava a pessoa para o Paiva. Sempre estou atendendo alguém. É preciso ter gente a noite inteira para atender porque sempre chegam muitas pessoas carentes na instituição.

JC - Mas o que o senhor gosta de fazer nos momentos de lazer?

Paiva - Gosto muito de ler livros e jornais. Gosto de estar atento ao momento do País e ao progresso.

JC - O senhor acompanha as notícias veiculadas pela mídia. O que acha dos programas assistenciais desenvolvidos pelo governo federal, como o Fome Zero?

Paiva - Os governos federal, estadual e municipal ajudam, mas o que acontece é que a quantidade de carência é muito grande. Não se pode ter uma assistência integrada, então a assistência é fraca e sobra um pouquinho para cada família. Assim, não há condições para manter uma família um mês inteiro. Aí acontece, muitas vezes, dos particulares completarem essa ajuda.

JC - Em sua opinião, as pessoas estão mais solidárias atualmente?

Paiva - As pessoas sempre têm que ter tempo para trabalhar e ajudar. Algumas pessoas ficam só em suas casas, arrumando festas, viagens e nunca vão à favela. Se elas nunca saem do seu cotidiano, o mundo fica todo cor-de-rosa. Quando a pessoa sai do conforto e vai até uma favela, pode ver despertado o sentimento de solidariedade. Mas, no geral, as pessoas estão ajudando mais, sim, porque hoje há muitas entidades sociais.

JC - O que é preciso para um mundo melhor?

Paiva - É necessário ajudar o próximo porque todo mundo vai embora da Terra, ninguém fica para a semente. Não adianta acumular, guardar, só ficar pensando nisso. É importante ser solidário com as necessidades do mundo. As pessoas precisam seguir o ensinamento de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros”.

JC - Quais são seus sonhos?

Paiva - Meu sonho é acabar com a fome, o sofrimento e a miséria para que todos tenham assistência e proteção.

JC - O senhor tem algum desejo particular?

Paiva - Não, eu vivo para os outros. Geralmente o indivíduo tem casa, mulher e filhos. Ele vive para emprego e para o lar. Eu abranjo o coletivo, o todo. Meu objetivo é sempre atender o próximo, com a ajuda de Deus.

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