JC Criança

Escrever para receber é o segredo da correspondência

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 6 min

A galera que hoje descobre o mundo virtual, não imagina como as informações eram transmitidas no passado. Dá para imaginar a vida das pessoas sem Internet, televisão, rádio e até sem telefone? Ah! Sem esquecer que não existia carro e nem avião. Tudo era transmitido de forma oral ou escrita. Naquela época, as informações demoravam muito mais para chegar a seu destino. Muito diferente da vida moderna, quando você liga a TV e acompanha ao mesmo tempo um fato que está acontecendo do outro lado do mundo. É a tecnologia agilizando a comunicação.

Mas existem formas de se comunicar que não perdem sua importância. Da mesma forma que o meio virtual não substitui o real, a gente continua usando a Internet e lendo um bom livro, o e-mail não substitui a carta social. É claro que muitas pessoas ampliaram sua comunicação com o e-mail, mas não vai substituir o prazer de receber uma cartinha, escrita de próprio punho, que pode trazer um cheirinho diferente, um desenho, um adesivo ou mesmo um envelope supertransado.

Receber uma cartinha é muito legal, mas para isso acontecer há um segredinho – nem tão segredo assim –, mas que as pessoas esquecem: é preciso escrever! Isso mesmo! Só esperar a cartinha não vale, é preciso escrever. Uma das coisas que mais gosto de fazer, no JC Criança, é receber as cartinhas dos leitores. Cada cartinha traz uma surpresa especial: escrita com canetas coloridas, um poema, uma história, um beijinho todo perfumado. É delicioso. Tem leitor que escreve a cartinha rimada, outros preferem fazer enfeitada, mas todas são lidas e publicadas – desenhos, histórias e fotos. A gente aproveita para recortar os selos – existe cada selo curioso -, conhecer as letrinhas do envelope.

Ercy Maria Marques de Faria é delegada da União Brasileira de Trovadores – Delegacia de Bauru – (UBT) membro da Academia Bauruense de Letras (ABL) e carinhosamente chamada de leitora número um do JC Criança é “gente grande” que adora escrever cartas. “Eu escrevo e recebo muitas cartas, apesar de usar também o computador. Também mando pelos Correios os boletins que fazemos da UBT. Quando chega carta de Portugal, por exemplo, já reconheço pelo selo e pelo carimbo, é uma delícia!”

Ela conta que é muito importante a gente criar um intercâmbio usando a correspondência, pois é uma forma de desenvolver a comunicação e a escrita. “Você conta como está a família, o que está acontecendo na cidade, na escola. A gente sempre tem alguma coisa para dizer”, comenta Ercy. Ela aproveita para valorizar o trabalho desenvolvido pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). “O papel dos Correios é muito importante e sempre avançam em seus serviços. É fora de série”, elogia.

Há, inclusive, o selo de R$ 0,01 (só um centavo) para carta social. Aquela cartinha que é escrita de uma pessoa para outra, com envelope escrito a mão e uma folha de papel. É um preço baratinho que permite a todas as pessoas se comunicarem, estando em qualquer lugar do Brasil. Você pode escrever para um amiguinho que mora no Acre e pagar só um centavo.

Estimular a escrita

Com a proposta de estimular a escrita entre os alunos da escola estadual “João Pedro Fernandes”, em Bauru, a professora Roseli Amélia de Almeida desenvolve, há 3 anos, o projeto “Trocando Correspondência”. Os alunos da 4.ª série são convidados a escrever cartas a alunos da escola estadual “José Sabbag”, em Duartina. “A gente troca a lista de alunos e na sala de aula, eles produzem a primeira cartinha. Primeiro no caderno e depois no papel.” A professora conta que todos se esforçam para evitar errinhos na escrita.

“É até engraçado, porque no dia-a-dia, eles não perguntam muito, mas quando chega o dia de escrever para o ‘amigo’ da outra escola, nossa, são todos muito cuidadosos. Não querem escrever errado.” O interessante é que a comunicação entre os alunos dessas escolas ocorre durante todo o ano, o que vai estabelecendo uma relação de amizade. “No fim do ano, a gente se encontra. Na primeira edição, eles vieram a Bauru. A turma visitou a escola e depois fomos todos ao Zoológico Municipal. Já no outro ano, estivemos em Duartina, a convite da Prefeitura de lá, que pagou inclusive o ônibus. Foi uma delícia!”

Este ano, os alunos também querem se encontrar, só não sabem se irão a Duartina ou se os novos amigos virão a Bauru. “Eles começaram a se comunicar agora. Receberam uma cartinha e enviaram a resposta. Na semana passada, estivemos nos Correios para postar as cartinhas”, comenta a professora, que este ano desenvolve o projeto com outras educadoras da “João Pedro Fernandes”, Fátima, Tânia e Lurdes, para ampliar o número de participantes.

A primeira lição é aprender a fazer o remetente e o destinatário, além de iniciar as perguntas para a cartinha. O que perguntar a uma pessoa que a gente ainda não conhece? Então, esse desafio, os alunos da escola já enfrentaram.

O Vinícius Eduardo de Moura Alves tem 10 anos e faz a 4.ª série A. “Eu recebi uma cartinha do Ricardo e depois escrevi para ele. É muito legal”, comenta.

Gesarella Keren Machado Rosa, 9 anos, está na 4.ª série B e está gostando do desafio. “A gente vai aprendendo. Ainda não deu para conhecer tudo.” Como ela, a Amanda Siqueira da Silva, 9 anos, também preparou sua cartinha. Ela é aluna da 3.ª série A, que iniciou já este ano no projeto. “Eu adoro escrever e ler também.” A Amanda já contou sobre o projeto para a mãe Simone, que acompanha o entusiasmo da filha. “Ela é muito empenhada mesmo. Está gostando de participar.”

Outra aluna da professora Roseli que já estabeleceu correspondência com duas alunas de Duartina é a Sandy Aparecida Mendes de Aguiar. Ela tem 10 anos e faz a 4.ª série A. Ela já recebeu cartas da Pâmela e da Raquel e respondeu as duas. “A Pâmela me perguntou como eu era, as minhas cores preferidas, o que eu gosto de comer. Ela também falou dela e de como são as coisas por lá.” Depois, Sandy escreveu para sua nova amiga, contando seus gostos e interesses. “Também escrevi para a Raquel, que falou que lá tem um lugar de lazer, com piscina, que é muito legal. Ela disse que a escola dela é muito grande e tem até sala de computação. Aproveitei e falei da minha escola, da minha professora.”

A Sandy está gostando muito de participar do projeto e disse que gostaria muito de conhecer suas novas amigas pessoalmente. “Correspondendo a gente vai se conhecendo, mas no final, seria legal encontrar de verdade. Eu estou pensando em mandar uma foto, mas ainda não mandei. Uma colega de classe mandou.”

Ela lembra que ficou superfeliz quando recebeu sua primeira carta. “Eu nunca tinha recebido uma carta e foi muito legal. Se chegasse em casa, seria ainda mais interessante.” A professora Roseli diz que no dia que as cartas chegam, a classe vira uma algazarra. “Todo mundo quer ler a carta do amigo, já quer escrever. É uma delícia. O legal, é que ninguém quer deixar de mandar uma cartinha interessante para o amigo e sem erros.”

A turminha exercita a escrita e ainda tem a oportunidade de conhecer gente nova. Segundo Roseli, há casos de alunos que se transformaram em verdadeiros amigos. Olha só que legal! Escreva uma cartinha você também!

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