Cultura

Concurso Mães & Filhos - A melhor história do nosso mundo


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Aprendendo a ser Mãe...

O corpinho dela treme. Por entre os soluços entrecortados, diz: “Não tenho sono, não quero ficar sozinha no meu quarto”. Busco para acalmá-la as palavras que acho que uma mãe diria; às vezes acho difícil lidar com ela. A vida nos colocou frente a frente quando ela já tinha 4 anos, tinha perdido a mãe e eu me casei com o seu pai. A nossa relação vai se construindo aos poucos; muitas vezes ela se mostra ciumenta e rebelde, mas também temos momentos de carinho e brincamos juntas como fazem mães e filhas.

Nessa noite, nos seus olhinhos assustados, vejo o meu medo de criança, o medo da noite e da solidão, a vontade de que o dia não acabasse nunca. E de repente, uma profunda compreensão me invade, compaixão mesmo daquela criaturinha aterrorizada no meio do corredor enfrentando os seus medos.

Sinto uma ternura imensa por ela, vontade de acolhê-la e de que ela seja feliz. Ela vem para o meu colo e eu lhe dou o abraço de que eu também precisei quando era do seu tamanho, e a acalanto com as palavras que a minha mãe dizia. No forte abraço a sua respiração aos poucos entra em sintonia com a minha. O corpo sacudido pelos soluços vai se acalmando. Os seus olhinhos se levantam para mim como os de um bichinho assustado.

Ficamos muito tempo assim, abraçadas. Passo a mão no seu cabelo e nas suas costas, devagar. E nesse momento sinto que a aceito com tudo o que ela representa para mim. Sei agora que ela é a minha filhinha, total e incondicionalmente. Eu não a gerei, mas nessa noite é como se ela tivesse nascido do meu ventre. Sinto que ela sabe que não está mais sozinha, e quando ela me abraça sinto também que nunca mais estarei sozinha.

Pela manhã quando vou acordá-la ela me diz: “Mãe, foi tão gostoso ontem à noite quando você me fez dormir!” Eu lhe dou um beijo e digo que também acho que foi muito gostoso. E os meus olhos se enchem de lágrimas.

Isso foi escrito há muito tempo. Hoje, essa menininha é uma moça de 21 anos, linda, inteligente e meiga. A nossa afinidade é muito grande e o nosso amor tão sólido que quase nem me lembro que não sou sua mãe biológica. Muitas vezes até nos acham parecidas...

A nossa relação mostra que o amor se constrói e está acima de tudo, transcendendo até o determinismo biológico, e também que há momentos na vida que são definitivos, quando o verdadeiro encontro com o outro e com a gente mesma nos revela a essência das coisas.

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