Um levantamento feito pelo Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo-Interior (Deinter-4) mostra que nos últimos dez anos 2.041 crianças e adolescentes desapareceram de casa na área abrangida pelo órgão cuja sede fica em Bauru - 89 municípios da região. Isso significa cerca de 204 ocorrências por ano. Desse total, 2.017 casos foram esclarecidos e ainda há quatro sem resposta.
Entre eles, consta o mistério do menino Josiel Dias Cardoso, de Brasília Paulista, que sumiu em 2003, quando tinha 2 anos. O caso dele inaugurou o banco de dados do Projeto Caminho de Volta em Bauru, lançado ontem à noite, na sede local da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
De acordo com o diretor do Deinter-4, Orlando Miranda Ferreira, a partir de agora, as ocorrências desse tipo passam a ser vistas de uma nova maneira. “Podemos dizer que a polícia passa a conviver com a ciência a partir de agora, com a implantação deste projeto”, frisa.
Segundo ele, o início dessa parceria com o Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), inaugura um novo método de trabalho, que levará em consideração não só o fato em si, mas todo o contexto dele. “Parece até que, há tempos atrás, a polícia era um mero órgão registrador. A pessoa desaparecia, era registrado o BO (boletim de ocorrência) e esperava-se que um dia ela reaparecesse. Hoje temos um atendimento privilegiado, com equipe de plantão para dar todo o apoio para a família”, ressalta.
Bauru é a terceira cidade do Brasil a abraçar o projeto (as outras duas são a Capital e São José dos Campos). O objetivo é desvendar o mistério do desaparecimento de crianças e adolescentes com o uso da ciência. “É a ciência a serviço da sociedade”, salienta o biólogo e geneticista Esiquiel de Miranda, um dos responsáveis pelo projeto em Bauru.
Genes e gente
A missão do Caminho de Volta é elucidar casos de crianças e adolescentes desaparecidos em todo o Brasil. De acordo com um levantamento do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), são registrados cerca de 8.000 desaparecimentos de pessoas nessa faixa etária por ano no Estado.
A professora doutora Gilka Jorge Fígaro Gattáz, docente do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da USP, e responsável pelo projeto Caminho de Volta, explica que ele funciona sobre quatro eixos: banco de DNA; identificação das causas do desaparecimento; suporte psicossocial aos familiares, e capacitação de centros regionais.
“Nós não vamos funcionar apenas como uma máquina coletora de dados (DNA). A idéia é entender porque ocorrem tantos desaparecimentos e dar apoio às famílias durante o processo e na reintegração da criança ou adolescente”, frisa.
Bauru foi escolhida para receber o projeto pela iniciativa do professor doutor da USP Esiquiel de Miranda, que procurou o Centro de Ciências Forenses da universidade no dia seguinte ao lançamento do projeto em São Paulo, em setembro do ano passado. “Mostramos o nosso interesse em integrar essa rede e os organizadores perceberam a necessidade de expandir o mais rápido possível o Caminho de Volta para o Interior”, destaca o professor.
• Serviço
O projeto Caminho de Volta é baseado em parcerias e precisa de voluntários de diversas áreas para ser aprimorado. Interessados em integrá-lo podem ligar para (14) 3212-1919 ou 3016-4699.
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BO imediato
Uma das conseqüências da impantação do projeto Caminho de Volta em Bauru é a mudança de comportamento da polícia já a partir do registro do desaparecimento.
Devido a uma regulamentação do Deinter-4, a partir de agora o BO dessa natureza deve ser feito imediatamente, sem a necessidade de se esperar 24 horas. “Na verdade, esse tempo de espera era um mito. Alguns policiais diziam isso para esperar um possível retorno da pessoa, mas não havia uma determinação para que isso existisse”, frisa o diretor do departamento policial, Orlando Ferreira.
Ele destaca que desde ontem à noite, com o lançamento do projeto, já havia uma equipe de plantão para atender qualquer caso de desaparecimento. “Ao registrarmos o BO, já damos início a um processo de acompanhamento dos familiares por psicólogos e assistentes sociais”, diz Ferreira.
O material genético é colhido dos pais de forma simples e prática: basta um pouco da mucosa bucal e um furinho no dedo para a retirada de uma pequena quantidade de sangue, que fica impressa em um papel especial.
As substâncias são enviadas para cadastramento no banco de dados do projeto. Ao se encontrar uma criança que tenha características semelhantes às do desaparecido, o material genético é comparado para se chegar à conclusão do parentesco.
“Parece coisa de ficção científica, mas é bem real e funciona mesmo”, frisa Orlando Miranda Ferreira.