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Nuvens cinzentas


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O primeiro trimestre de 2005 mostra que a economia brasileira apresenta sinais de arrefecimento do crescimento econômico. Os sinais vêm de todo lado: vendas do comércio, vendas e produção da indústria e nível de emprego. O único fator que sustentava o crescimento da economia brasileira em 2004 eram as exportações. Foram elas que provocaram o rebatimento na melhoria da situação interna, promovendo uma recuperação razoável das vendas internas (reprimidas em 2003), amparadas no crescimento absoluto do número de trabalhadores empregados, na recuperação de alguma confiança do consumidor e, mais recentemente, na ampliação do crédito com desconto em folha.

O problema, agora, é que embora as exportações continuem aumentando, seus efeitos sobre o emprego interno já são menos intensos do que em 2004, os salários reais (poder de compra) dos trabalhadores continuam sem aumentar e a rotatividade no emprego aumentou com a demissão de trabalhadores com salários mais altos, substituídos por outros de menor salário. Não bastasse isso, o aumento do crédito para o consumo no ano passado e início deste, além do alongamento dos prazos de financiamento, parecem ter resultado em uma elevação concentrada da dívida da população, o que deve reduzir o ímpeto do consumo neste ano, pois a renda atual, além de não crescer, terá que pagar as prestações da dívida antiga. Acrescente-se a isso o aumento da taxa de desemprego neste primeiro trimestre, que reduz a confiança dos consumidores e a insistência do governo em manter altas taxas de juros reais.

Se o consumo já mostra sinais de relativa desaceleração, as alternativas que sobram para sustentar o crescimento da economia são os investimentos privados, os gastos do governo e as exportações. Estas últimas, embora ainda aumentando em decorrência de um quadro mundial favorável para vários produtos, poderão não se sustentar daqui a alguns meses, caso o valor do dólar continue a cair em relação ao real, além das possibilidades de aumento do protecionismo nos Estados Unidos e Europa em função do quadro do comércio mundial e da volúpia chinesa por mercados.

No atual quadro de incertezas, dificilmente os empresários tomarão decisões importantes sobre os investimentos, a não ser em casos isolados Por outro lado, as taxas de juros internas representam um custo efetivo muito alto para os investimentos, além de um custo de oportunidade para aplicação e valorização do capital sem maiores riscos, elementos que também contribuem para a inibição dos investimentos. Restariam os gastos do governo. Também neste caso pouco se pode esperar, dada a política de sustentação de um superávit fiscal que impede o governo de realizar investimentos importantes para o desenvolvimento da economia ou mesmo da área social. Grande parte da arrecadação e todo o superávit obtido vão servir somente para pagar juros da dívida.

A conseqüência é que deveremos ter um ano morno em termos de crescimento econômico. Resta saber se isso não é uma estratégia política deliberada do ministro Palocci, como fez em 2003, para liberar um pouco as amarras da economia em 2006 (como fez em 2004), ano da tentativa de reeleição de seu companheiro Lula. Ou seja, todo o mal seria feito de uma única vez em 2005, reservando o bem para 2006. O problema é que as circunstâncias internacionais amplamente favoráveis de hoje poderão não prevalecer em 2006. Portanto, se esse for o jogo, confesso que é de alto risco.

O autor, Gabriel Ferrato, é professor do Instituto de Economia da Unicamp

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