Tribuna do Leitor

Severino Paraguaçu


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Severino Cavalcanti, dada suas propriedades anatômicas, lingüísticas e factuais, tem muito a ver com o saudoso nordestino Odorico Paraguaçu, prefeito destemperado da pequena cidade de Sucupira, muito bem interpretado pelo falecido ator Paulo Gracindo no seriado “O Bem Amado”, das décadas de 70 e 80. A maior diferença é que Odorico era extremamente engraçado em suas estultices e fanfarronices, conquanto a figura de Severino Cavalcanti, se não lhe traz constrangimento algum, é uma lástima para a representação legislativa e política nacional.

Esse político, que tem sido classificado de “autêntico” em face da naturalidade com que profere as asneiras que lhes são tão peculiares, não pode ser tratado como se fosse um matuto comum. Severino é, lamentavelmente, o terceiro homem na sucessão presidencial, mas longe de representar qualquer qualidade que o indicasse a ocupar o posto máximo da hierarquia nacional.

Sua plataforma eleitoral foi vergonhosamente voltada para a satisfação dos interesses pessoais dos parlamentares, numa visão arcaica que só seria cômica na figura de Odorico Paraguaçu. Severino não se avexa de pregar o nepotismo, a troca de favores pessoais, o aumento de salário parlamentar ou desmascarar sua ignorância, alegando que consulta freqüentemente a “filha letrada” para algumas decisões.

Curiosamente, o povo que elegeu, elege e elegerá eternamente os Severinos da vida política deste Brasil é o mesmo que estava representado pela fictícia Sucupira. É o ignorante que acredita nas promessas baratas e não se importa pela falta de retorno ou falha nos serviços públicos. É o povo que acredita que a grande arma da democracia é o voto. Aquele povo que acha que sempre teremos que esperar mais quatro anos para “dar a resposta”, já que é cego o bastante para não enxergar que, quando sai um Severino, entra um Odorico Paraguaçu.

Nessa pantomima nacional, rezo para que o AeroLula aterrisse sempre em segurança para que não tenhamos, no raiar de um dia da Sucupira brasileira, que seguir as diretrizes da “filha letrada” do Severino.

Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173

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