Articulistas

Viver e sobreviver


| Tempo de leitura: 2 min

Quando crianças queremos crescer, e por acharmos que somos imortais, empurramo-nos como a areia que desce serena e decididamente na ampulheta em seus primeiros momentos. Os tempos da infância demoram a passar, assemelham-se à eternidade. Mais tarde, o tempo curva-se sobre nós e curvamo-nos à realidade, mas nossos sonhos e nossas esperanças nos vão mantendo vivos, despertos, lutando. A esperança sustenta os nossos sonhos. O espectro da morte passa ao largo, pois nosso entusiasmo é maior.

A adversidade - mestra rigorosa - quer, às vezes, subjugar-nos, mas vamos aprendendo a transformar as pedras em flores e a agradecer a existência daqueles obstáculos que nos põem à prova à medida que vamos vivendo, caminhando, apreciando a viagem, o colorido dos dias ensolarados, o recolhimento nos dias chuvosos, não querendo chegar ao fim da caminhada, pois algo nos impulsiona a viver mais e mais: um filho que vai chegar, ou um outro que está crescendo, o amor que quer sobreviver, a esperança de se tornar outra pessoa melhor, uma vontade atávica de viver e ser feliz.

Qual o segredo, a magia dominada por aqueles que trazem sempre um sorriso no rosto e o coração cheio de júbilo? Há certos segredos que não vêm de magias, senão de conhecimentos, estes sim, chaves mágicas que podem abrir as cerradas portas do entendimento. A fórmula da felicidade pode ser simples ou muito complicada. Ninguém consegue sentir-se feliz se não for capaz de reter em sua recordação os pequenos momentos de alegria que vai vivendo no decorrer da vida. Cada pequeno momento unido a outro, a outro e a outro vai formando um singelo e maravilhoso colar pessoal chamado felicidade. E este colar, dependendo do adestramento de quem o fabrica, poderá constituir um escudo protetor contra os momentos de tristeza, desânimo e depressão.

A alegria é um estado pessoal expansivo. No momento em que se a experimenta, a vida se amplia e mal se consegue reter a energia que dela provem. Todos, no fundo, buscam ser alegres e felizes. No entanto, em geral, a alegria é fugaz. Muitos acreditam ser a vida um vale de sofrimentos e penúrias. E esta crença é tão forte que a vida acaba por se transformar, infelizmente, num sofrimento interminável.

O jogo do contente - celebrizado pela famosa personagem de um conhecido romance juvenil - encarna uma realidade pouco compreendida pela maioria dos seres humanos: que a felicidade é alcançável e que sua conquista depende muito do empenho de quem a busca; que se poderá encontrá-la nas profundezas do íntimo, sentir onde são registrados os episódios vividos da mais grata repercussão na vida. Assim, para ser feliz, é necessário querer do fundo do coração. E buscar essa felicidade nos mínimos acontecimentos diários, e registrá-los na memória, qual num álbum de fotografias, para que não caiam no esquecimento e possam, assim, substanciar e fortalecer os dias futuros.

O autor, Nagib Anderáos Neto, é articulista

Comentários

Comentários