Formar uma rede de atendimento psicossocial para ajudar a prevenir desaparecimento de crianças e adolescentes é um dos principais objetivos do projeto Caminho de Volta, lançado na última quinta-feira, em Bauru.
Criado pela equipe do Departamento de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), sob coordenação da professora doutora Gilka Jorge Fígaro Gattás, o programa visa coletar DNA de pessoas desaparecidas e de seus pais, cruzar informações, promover o reencontro dos lados envolvidos e, principalmente, dar uma base psicossocial para que esse tipo de ocorrência não volte a ser registrada.
Nesta entrevista, Gattás explica os processos do programa e destaca que ele vai formar uma rede de atendimento inédita em todo o País.
Jornal da Cidade - Como nasceu o projeto Caminho de Volta?
Gilka Jorge Fígaro Gattás - Trata-se de uma iniciativa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), lançada em setembro de 2004.
JC - Já está implantado em quantas cidades?
Gilka - Aqui (Bauru) é a segunda (cidade) no Interior. Ele nasceu na Capital, depois fizemos a implantação em São José dos Campos, na área da Deinter 1 (Departamento de Polícia Judiciária de São Paulo-Interior). Apesar que Bauru já tem uma família no nosso banco, a do Josiel Dias Cardoso (menino que desapareceu em 2003, do distrito de Brasília Paulista, e até hoje não foi localizado).
JC - Como é o funcionamento do projeto?
Gilka - O projeto tem quatro eixos principais: o banco de DNA; um estudo epidemiológico para saber as causas do desaparecimento; atendimento psicossocial durante todo o processo de busca, e capacitação de outros centros, que é o que estamos fazendo aqui.
JC - Por que criar um projeto desse porte, envolvendo ciência e polícia?
Gilka - Nós identificamos a magnitude do problema. Dados da Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) mostram que por ano, no Estado de São Paulo, são registradas 8 mil crianças desaparecidas. Estima-se que no Brasil esse número seja de 30 mil. Esse quadro é absurdo e não havia nenhum dado sistemático sobre as razões do desaparecimento, a idade das crianças, quantas vezes somem de casa. Então, nós começamos a estudar esse universo nas próprias delegacias. Também contribuiu para isso a minha experiência dentro do departamento. Durante quatro anos, eu fui chefe do Departamento de Medicina Legal. Hoje eu sou vice-chefe desta repartição. Eu já trabalhava com DNA há muitos anos, usando essa metodologia tanto para investigação de paternidade, que é a mesma técnica, quanto para identificação humana. Por outro lado, a gente tem um serviço de atendimento a famílias que têm crianças vítimas de abuso sexual dentro de casa.
JC - Como está sendo desenvolvido o Caminho de Volta?
Gilka - Nunca quisemos criar uma linha paralela, levando para a população uma esperança de que vamos sair por aí, buscando os filhos, não é isso. Nós estamos auxiliando os órgãos competentes para fazer isso, no caso, a polícia. Nós montamos uma filial do projeto dentro do DHPP, em São Paulo. Para se inserir no programa, a família tem de ter um boletim de ocorrência do desaparecimento. Essa pessoa desaparecida tem de ser menor de 18 anos. Essa é a porta de entrada no projeto. Tanto se ele desapareceu hoje quanto há 20 anos. Fazemos um atendimento a essa família para traçar um diagnóstico da criança. Com isso, colhemos vários dados que são importantes e vão compor o nosso banco de dados sobre o desaparecimento, a região, as razões por que saiu, qual era o perfil da criança, se era tímida, arrojada, se tem violência dentro de casa.
JC - E onde entra o DNA na história?
Gilka - Nesta primeira entrevista, já coletamos o material biológico. Hoje o DNA é muito fácil de ser coletado em campo, ao contrário de antigamente, quando era preciso retirar sangue, guardá-lo na geladeira, ter alguém lá, com agulha e seringa. Agora, você faz um furinho na ponta do dedo, coloca uma gota de sangue nesse papel de filtro especial e, depois de seco, guarda o material no armário do laboratório. Durante 20 anos, é possível fazer a análise desse DNA, ele não se perde. Na delegacia mesmo, é coletado o material biológico dos pais. Esse DNA vai para o laboratório da faculdade e a análise é arquivada em um banco de dados. Cada um de nós tem um perfil de DNA, é como se fosse a impressão digital do nosso organismo. Metade dele recebemos da mãe e metade do pai. Quando uma criança é encontrada e ninguém sabe quem é a família, colhe-se o DNA dela e traça-se o perfil desse material, que é cruzado com o dos pais que estavam arquivados no banco. Se existir compatibilidade, o caso está resolvido. É como um zíper: um lado ela ganhou da mãe; o outro, do pai. Eu tenho de encontrar essas abas nos pais. Só quando eu encontrar os lados que se encaixam é que eu vou fechar essa identificação. Se o DNA dela não combinar com o dos pais que estão arquivados, o código dela é mantido no banco. Toda vez que um pai novo entrar no projeto, automaticamente o DNA deles cruza com o das crianças. Eu tenho um banco ágil, que vai me dar resposta sobre essa criança daqui 20, 30, 40 anos; ele vai servir a qualquer momento. O DNA permite estabelecer esse vínculo de filiação.
JC - O código genético é o que dá garantia de eficácia ao projeto?
Gilka - Sim, ele é 100% confiável, além de ser imutável. Se o indivíduo se perdeu aos 2 anos e hoje tem 50 anos, a fisionomia mudou totalmente, mas o DNA é o mesmo. Essas crianças migram. Ela pode ser roubada em Bauru e ser levada para Belém do Pará. Para você confirmar a paternidade hoje, tem de levar a família até o local onde houve a localização, para olhar, reconhecer, ou a criança tem de vir até os possíveis pais. Com o código genético, não precisa fazer esse confronto.
JC - E quanto à segunda parte desse projeto, como foi inserida no contexto?
Gilka - No princípio, iríamos fazer apenas o banco de dados, mas quando começamos a ver os boletins de ocorrência, percebemos que há crianças que fogem de casa 15, 20 vezes; algumas mães não sabem nem dizer quantas vezes os filhos desapareceram. Isso nos mostrou que essas famílias estão doentes, que precisam de ajuda. Não adianta devolver essa criança ao lar, porque ela vai fugir de novo. Esse acompanhamento da família é um eixo muito importante do projeto.
JC - Como ele funciona?
Gilka - Os psicólogos quando fazem o primeiro atendimento, convocam a família para mais três entrevistas no DHPP. Isso não é tratamento, é diagnóstico para verificar o tipo de ajuda que essas pessoas precisam. No bairro onde elas moram, vamos localizar um grupo que possa atendê-la: serviços de apoio da prefeitura, com psicólogos e assistentes sociais; de universidades públicas e privadas. Nós estamos formando uma rede de atendimento para trabalhar com a questão do desaparecimento, que é algo que nunca existiu. Nosso grupo de psicólogos vai amarrar esse processo. Nós não temos condições, nem pela universidade, de atender todo o contingente de desaparecidos no Estado. Nós formamos parcerias.
JC - A idéia é estender esse projeto para todo o Brasil?
Gilka - Nós já recebemos esse pedido, mas vamos começar por São Paulo. Ele começou por aqui porque temos um convênio oficial, assinado pelo governador (Geraldo Alckmin), USP e Secretaria Estadual de Segurança Pública.
JC- A senhora havia dito que uma das barreiras do projeto é a parte financeira. Vocês estão conseguindo parceria para viabilizar essa questão?
Gilka - Nós estamos trabalhando para isso. Lançamos o projeto com algumas parcerias financeiras - o laboratório, por exemplo, foi montado pelos nossos parceiros, mas com a condição de ser comprado quando adquirirmos verba. Por enquanto, estamos conseguindo tocar o projeto, mas contamos com a participação da iniciativa privada. Nós ganhamos no final do ano passado uma verba do governo federal de R$ 180 mil para fazer essa capacitação do Interior, expandir o projeto e promover discussões estaduais e nacionais sobre o problema.
JC - Já há alguma criança localizada pelo projeto?
Gilka - Ainda não. Por enquanto, o programa está sendo alimentado com o DNA dos familiares. Mas precisa de toda essa sistematização dentro do Estado, dos órgãos competentes, para encaminhar o material para o banco. Isso leva um certo tempo de negociação. Mas o DNA dos pais é muito necessário, pois eles também mudam de endereço, morrem. Ter o DNA deles é uma garantia de, no mínimo, a criança saber quem é a sua família.
JC - Em Bauru, como será o início dos trabalhos?
Gilka - Aqui vai funcionar da mesma maneira que na Capital. O importante é trabalhar essa demanda reprimida. Deve haver um programa da própria delegacia de convocar essas famílias de casos não resolvidos e o novos, que forem entrando, automaticamente serão convidados a se inserir no projeto.
JC - Quando o banco já estiver bem alimentado de dados, quanto tempo vai levar para se localizar uma criança desaparecida?
Gilka - Um dia. Porque tudo já está pronto no computador. É só apertar um botão, ele vai lá e busca. Agora, se for o material de uma criança morta, por exemplo, isso poderá levar mais tempo, porque dá mais trabalho para traçar o perfil genético dela.
JC - E o terceiro eixo do processo, como se dá?
Gilka - É a questão da identificação das causas. Lógico que é importante localizar a criança, mas é preciso saber porque elas estão desaparecendo. Se a gente não conhecer as causas, vai ser muito difícil estabelecer medidas de prevenção efetivas de políticas públicas que possam sanear o problema.
JC - Não pode ser apenas uma máquina de encontrar crianças.
Gilka - Não, não teria sentido. Essas entrevistas geram informações, que vão ser colocadas no banco. Uma das questões que todos falam é que a falta de condição socioeconômica gera esses desparecimentos. Isso é um achismo. Nunca ninguém estudou. A forma de verificar isso é pesquisar outra família que tenha um nível socioeconômico o mais próximo possível dessa família, que tenha construção familiar semelhante, com filhos na mesma idade, mas onde a criança não desaparece. Aí sim você pode dizer o que estava acontecendo. Você tem duas na mesma situação.