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O vôo de galinha


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Os indicadores recentes da economia brasileira, tanto da produção industrial quanto do comércio varejista, mostram que o ciclo de recuperação já atingiu o seu auge e está em processo de desaceleração, o que faz prever para a economia brasileira um estado de semi-estagnação até o final do ano. Na realidade, a recuperação econômica, iniciada em 2003 e que ganhou impulso com o extraordinário desempenho da economia mundial, entrou em 2004 com sinais claros de que não atingiríamos os mesmos indicadores, isto porque, esta recuperação cíclica não se transformou em crescimento sustentado. Tão logo as exportações trouxeram crescimento econômico, o governo mudou sua política e as elevadas taxas de juros praticadas a partir de setembro de 2003 provocaram redução nos investimentos produtivos e o retorno dos capitais estrangeiros de curto prazo e a valorização da taxa de câmbio.

É fundamental esclarecer que a elevação das taxas de juros está causando inibição dos investimentos e endividamento das empresas e da população brasileira. A situação das empresas, sobretudo as pequenas e médias, explica-se pelo custo financeiro na tomada de empréstimos bancários para capital de giro; na população em geral, explica-se pela elevação das prestações na aquisição de bens de consumo. Esses fatos levam-nos a questionar se a elevação da taxa de juros provoca um efeito mais positivo ou negativo à economia. Na nossa opinião, a conseqüência é flagrantemente negativa.

Além dos danos causados às empresas e à população, as taxas de juros elevadas aumentam a dívida interna do País, que hoje se aproxima de R$ 900 bilhões. Quanto maior os encargos da dívida, maior a necessidade de se ter superávits primários elevados, decorrendo em sobras cada vez menores para se fazer investimentos em infra-estrutura, segurança, saúde e educação, responsabilidades de um Estado moderno.

Na realidade, portanto, a variável central para que a recuperação se transforme em crescimento sustentável é a taxa de investimento. E se queremos uma trajetória de crescimento econômico acima da média verificada nos últimos anos de 2,5% ao ano, precisamos aumentar a taxa de investimento de forma persistente e contínua.

Com a expansão das exportações, tivemos um incremento dos investimentos no último ciclo de recuperação da economia, porém bastante modesto e, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, os investimentos caíram 26,5% no último trimestre do ano passado. É evidente que isto ocorreu com a elevação da taxa real de juros (13,1% ao ano) pelo Banco Central a partir de setembro do ano passado, a forte desvalorização do dólar e uma política expansionista que juntos desincentivaram os investimentos privados .

Para finalizar, é bom lembrar que o déficit norte-americano recorde e os preços do petróleo em alta preocupam a todos os países e podem mudar os rumos do mercado financeiro global. A resposta poderá ser uma elevação mais forte das taxas internas de juros dos EUA, o que proporcionará um novo choque de capitais com a reversão do fluxo para aquele país e conseqüente valorização do dólar frente ao real. Isto provocará o reinício de um novo ciclo de aceleração da inflação com aumento da taxa de juros e nova contração do nível de atividades na indústria, comércio e serviços. A questão é só uma questão de tempo se o governo não mudar sua política econômica. Os analistas econômicos já começaram a alertar!

O autor, Carlos Roberto Sette, é economista, consultor de empresas e coordenador do Grupo de Economia do Ciesp/Bauru

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