Não importa o ramo de atuação. O fato é que a movimentação diária nas paradas de ônibus da área central de Bauru faz a alegria e garante o lucro de muitos comerciantes instalados perto desses pontos. Enquanto esperam a condução chegar, as pessoas aproveitam para fazer compras nas lojas, matar a fome ou a sede em bares e lanchonetes e pagar suas contas em casas lotéricas.
Nerly de Freitas, gerente de um bar localizado na quadra 11 da rua Araújo Leite, afirma que 80% dos seus clientes são pessoas que utilizam o ponto de ônibus situado bem em frente ao estabelecimento. Durante o tempo em que a reportagem do Jornal da Cidade ficou no local, o fluxo de ônibus foi constante.
“Tem gente que chega e já entra direto no bar. Mas a maioria fica olhando um tempão enquanto fica no ponto, e acaba resolvendo comprar alguma coisa minutos antes do ônibus chegar. Já me especializei em atender com rapidez para não deixar o pessoal perder nem o produto, nem o ônibus”, brinca Nerly.
Ontem à tarde, a técnica em enfermagem Andréia Maura Brasil Souza, 23 anos, comprou uma guloseima enquanto esperava o ônibus para ir buscar seu filho, de 7 meses, numa creche no Parque Vista Alegre. De lá seguiria para casa, no Beija-Flor. Todos os dias ela passa pelo local e conta que é comum deixar-se render por algum atrativo do bar.
“Geralmente eu tomo um refresco enquanto espero o ônibus chegar, nos dias de calor. Acho bom ter o bar em frente ao ponto porque ajuda a passar o tempo. Eu fico de 20 a 25 minutos (esperando)”, diz Andréia, que terminou de falar com a reportagem no exato momento em que seu ônibus chegou.
Maria Inês Rodrigues Alves, 39 anos, entrou no mesmo estabelecimento para comprar um copo de água, de R$ 0,50, depois de dez minutos que estava no ponto. O circular em que ela ia entrar ainda demoraria mais dez ou 15 minutos para chegar. “Não estava agüentando de calor”, diz.
A gerente Nerly conta que o estabelecimento funciona das 7h às 19h, e que no período da manhã o local é freqüentado por muitas pessoas que trabalham a noite toda e aproveitam para tomar um breve café da manhã enquanto aguardam o ônibus para ir embora.
“Esses clientes são pessoas que trabalham num banco aqui perto, vigilantes, seguranças. Mas também temos uma clientela fixa que vai além do pessoal que utiliza o ponto de ônibus. Nos dias quentes, o que mais sai é água, suco e sorvete. No tempo do frio, o movimento cai um pouco. Também tem gente que faz amizade e às vezes vem aqui para desabafar”, conta a gerente.
Rodrigues Alves
Mudando de lugar, na quadra 9 da avenida Rodrigues Alves todos os pontos comerciais são privilegiados pelo intenso fluxo de consumidores que utilizam o sistema de transporte coletivo da cidade. Luiz Melo, proprietário de uma loja especializada em cosméticos que está no local há dez anos, afirma que o ponto foi escolhido justamente em função do constante fluxo de pedestres.
“Estou aqui há tanto tempo que já virou um casamento comercial entre loja e clientes. Como eu abro a loja às 8h, atendo muitas pessoas que trabalham no comércio e que aproveitam para fazer compras antes do início do expediente. Às vezes acontece de uma cliente pegar a mercadoria e o ônibus chega antes dela pagar. Quanto é freguesa antiga, eu deixo para receber em outro dia para ela não perder o ônibus”, confidencia o comerciante.
Na mesma quadra da avenida, o proprietário de uma casa lotérica, Carlos Augusto Carnelossi, também comemora a localização de seu estabelecimento, que funciona das 8h às 19h de segunda a sexta-feira.
“O cliente se acostuma com os pontos de ônibus. Então, quem precisa pagar uma conta ou quer fazer um jogo já deixa para fazer isso quando vem aqui para o Centro. A maioria dos meus fregueses são pessoas que usam esse ponto ou que trabalham nas proximidades e vem pegar o ônibus aqui.”
A poucos metros dali, Irene Francisco diz que 60% dos clientes de seu brechó são pessoas que usam o ponto de ônibus em frente à loja.
“Enquanto esperam a condução, as pessoas entram para dar uma olhadinha para passar o tempo. O resultado é que sempre acabam comprando alguma coisa. Também acontece muito da pessoa estar dentro do ônibus e enxergar uma roupa que lhe agrada. Aí, ela volta outro dia só para comprar aquela peça”, conta Irene.
Segundo ela, a loja faz sucesso porque tem artigos a partir de R$ 2,00, entre roupas masculinas, femininas e infantis, calçados, bolsas e outros acessórios. Hoje, a peça mais cara do brechó é um sobretudo preto de lã, à venda por R$ 100,00. Enquanto Irene falava com a reportagem, duas moças que estavam dentro de um ônibus parado no ponto conversavam e apontavam as mercadorias expostas na loja: cliente à vista.