Palavras de Mãe
Por esta menina que levo em meu colo, estreitada em meu peito, como um único coração a pulsar vigoroso, é que meus pés sustentam turbilhões e procelas, só para presentear-lhe as avenidas das primaveras e o canto dos pássaros.
Por este anjo que contemplo dormir sereno é que minha alma é mais quieta, meus passos andam cautelosos pela casa e minha voz é suave como uma canção de surdina, porque temo despertá-la.
E quando ando silenciosa pelo campo, penso que também as árvores têm seus filhos dormidos e sobre eles velam inclinadas.
Observo, incansável, seus olhos doces, que sob cujas pálpebras inferiores verte a cor púrpura do sangue de criança saudável e me dão deleite e tranquilidade. Mas, quando ela adoece, meu corpo de mim se esvai, gota a gota, pois estou concentrada em transferir-lhe toda minha vitalidade, para que sare depressa.
Meus dias ao seu lado respiram os ares lúdicos da leveza da infância, entre parques e travessuras, pipas e amarelinhas, contos de fadas e lobos maus e canções de ninar. Em nossa casa, o cheiro de bolo no forno, as fotos nos painéis, as cores quentes e aconchegantes das paredes e brinquedos espalhados por todo canto anunciam o reino da felicidade suprema.
Tenho medos e incertezas, sim; mas por esta menina tornei-me mais religiosa, e, de mãos dadas com Deus, conduzo-a confiante diante dos verdadeiros lobos que assolam o mundo.
Ao olhar-me no espelho, compreendo que não verei mais a cintura delicada, a silhueta perfeita de antes, porém, maravilhada, abraço meu ventre, de onde esta jóia maior abriu os olhos à luz e em prece agradeço a transformação de meu ser orgulhoso e robusto de mãe.
É para ela o melhor do que lhe posso oferecer, a melhor das virtudes e aprendizados, as sempre verdades, o melhor de mim, o contorcer de meus membros só para proporcionar-lhe o melhor conforto.
Creio que este rostinho tão meigo que acalmo e acaricio quando suas lágrimas trêmulas resvalam por tombos e sustos, já esteve fixo em meus sentidos durante toda minha existência, pois sinto amá-la desde o infinito. Ouço sua voz graciosa chamar-me de mãe, e nesta hora... Ah! Nesta hora, a ternura me embriaga como o vinho.
Por esta menina, amada filha, a cada manhã que nasce, abro a janela, abraço-a em colo e alegremente sussurramos um bom dia e beijamos o sol. E eu vou renascendo, amando mais e mais e tecendo um depurado coração.