Cultura

Artigo: Repaginando a vida


| Tempo de leitura: 3 min

Ercília Ferraz de Arruda Pollice

O outono é dourado! O outono é lindo! Quem não conhece a canção “The falling leaves drift by the window, the autumn leaves are red and gold”?

Quem já viu um outono no hemisfério norte, jamais se esquecerá. Não temos outono por aqui, não de maneira marcante, que dê para se fazer canções como esta.

Mas, particularmente neste ano, vislumbrei Campos do Jordão outonando. As cercas vivas de hortências, ainda não castigadas totalmente pelo frio, daquele azul que só elas sabem ter, me encantaram. Os plátamos cor de ouro velho, meio alaranjadas, iluminavam as alamedas, com folhas belas, recortadas, alaranjadas. Enchi um vaso delas, como sempre.

O céu estava de um azul de doer os olhos. Lindamente azul! O mundo estava em festa e eu estava feliz!

Mas houve uma manhã em que tudo amanheceu plúmbeo - gosto dessa palavra. Linda, sonora, densa e meio triste.

Mar ausente e concreta serra, mas de uma concretude abstrata, pois toda azulada, mal dava para se ver inteira. E a névoa a encobria fazendo da paisagem uma aquarela esmaecida e sem contornos certos.

Engraçado como essa névoa acinzentada mexeu com meu feeling, realmente meu corpo gosta do frio, mas meu coração é tropical, quer sol, quer luz, quer claridade. Frio? Delícia. Mas quero céu de brigadeiro.

A alma humana é deveras complicada! Bata um senãozinho, uma nuvenzinha qualquer, um céu sem sol e, assim à toa, de pronto, nossa alegria se esvai e o banzo toma conta da alma inteira. Uma sensação doída, um desconforto sem motivo, uma saudade não se sabe de que... De mim mesma, talvez.

Fiquei, então, pensando cá com meus botões o quanto é admirável e até ininteligível que, sendo assim tão sensíveis, tão frágeis, tão vulneráveis, resistamos a tantas interpéries, tantos descaminhos ao longo da vida e consigamos prosseguir na caminhada, vivendo dia após dia, nos repaginando a cada sacudida que a vida nos dá, sem perder a esperança de que tudo vai dar certo. “Admirável Mundo Novo”? Que nada! Huxley deveria ter escrito “Admirável Homem Novo”, que se renova a cada manhã.

É bem verdade que nem todos conseguimos sair inteiros. Muitos de nós, a cada luta, vai deixando pedacinhos espalhados, casos caídos como folhas de outono que, uma vez sopradas pelo vento, não se recolhe jamais.

Por isso, o outono me enternece tanto... quando piso em folhas secas e ouço seu farfalhar, não há como não fazer analogia com a vida.

Os anos passam ligeiros, não nos damos conta. Quando se dá conta, já foi. Todos temos vontade de virar a ampulheta mil vezes, milhões de vezes, vezes sem conta, para segurar os anos.

Porque não tem conversa. Mesmo maravilhados com as folhas secas e fazendo delas um tapete de tons nacarados, após o farfalhar o vento sopra e o inverno chega, quer demos nosso aval ou não, quer queiramos ou não, quer aceitemos ou não.

A única saída é guardar na memória os tons dourados de todos os outonos vividos e nos agasalhar bem, esperando pelos dias frios.

Nesta nossa vida as estações chegam sem a nossa permissão.

Mais dia mesmos dia, teremos todos o “inverno de nossa desesperança”, como escreveu Caldwell. Um inverno sem primavera. Coisa chata essa constatação!

Quero acertar contas com Adão!

A autora, Ercilia Ferraz de Arruda Pollice, é poeta, escritora e colaboradora do Ju Machado escritório de arte.

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