O remanejamento das equipes médicas de urgência e emergência dos prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga para reforçar os prontos-socorros Central, Bela Vista e Infantil vai, na prática, transformar as duas unidades descentralizadas em prestadoras de serviços básicos, ou seja, núcleo de saúde, que abre das 7h às 17h. O atendimento emergencial, oferecido dia e noite, ficará restrito aos prontos-socorros Central, Bela Vista e Infantil. A proposta integra o Plano Emergencial para a Rede Municipal de Urgência, que será apresentado nos próximos dias ao prefeito Tuga Angerami (PDT).
Porém, a prefeitura, através de sua assessoria de imprensa, garante que manterá no PS Mary Dota uma ambulância para transportar os pacientes para as unidades que atendem emergência 24 horas. É o que já ocorre, desde o final de abril do ano passado, no PS Ipiranga. Por falta de médicos, o atendimento pediátrico no período noturno foi substituído por uma ambulância, para remover os pacientes até o PS Infantil.
A reportagem do JC teve acesso a detalhes do plano emergencial elaborado por técnicos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), que propõe a interrupção do atendimento de urgência e emergência nos PSs Mary Dota e Ipiranga até a regularização do quadro de médicos.
Em nota divulgada anteontem, através da assessoria de imprensa, a prefeitura afirma que o remanejamento dos profissionais será feito até a contratação de médicos. Na mesma nota, a administração anunciou a abertura de concurso público para o recrutamento de 75 médicos.
O diretor do Departamento de Urgência e Emergência da SMS, Aigiro Kamada, avalia que a medida vai esclarecer a população sobre quais as unidades de saúde oferecem efetivamente atendimento de urgência e emergência.
Ele explica que a decisão visa ainda remediar o do déficit de médicos de urgência e emergência agravado com a entrada em funcionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu 192). “O então candidato a prefeito Tuga não sabia que no dia 21 de dezembro (2004) iria inaugurar um outro serviço usando profissionais de um departamento (Emergência e Urgência) que já tinha déficit de médicos”, frisa.
O médico Carlos Alberto Monte Gobbo, conselheiro do Conselho Regional de Medicina (Cremesp), avalia que a prefeitura, ao anunciar o remanejamento, não pode oferecer um atendimento médico de fachada. “Não pode criar uma estrutura que gere uma falsa expectativa na população. Hoje há uma falsa expectativa de pronto-socorro nesses lugares (Ipiranga, Mary Dota e Bela Vista).” Ele acha que, se não tem como manter cinco prontos-socorros em funcionamento, então é melhor reduzir para dois e oferecer atendimento adequado.
A vereadora Majô Jandreice (PC do B), integrante da Comissão de Saúde da Câmara, entende que os prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga não estão capacitados para atender urgência e emergência. “Se for analisar dentro do necessário para ser uma unidade de urgência e emergência de verdade, eles nunca se constituíram desta forma. Sempre com prédios com dificuldade de espaço físico, dificuldade de equipamento e equipe”, lembra.
Ela comenta que das três unidades de urgência descentralizadas de Bauru, apenas a da Bela Vista passou por uma grande reforma e a do Ipiranga foi ampliada. Entretanto, frisa que os prédios dos prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga foram construídos com padrões de unidades básicas de saúde.
Majo ressalta que as unidades descentralizadas oferecem atendimento, mas de forma deficiente. “Elas sempre acabam ficando desfalcadas (de médicos)”, alerta.
A vereadora relembra a comoção ocorrida em 2000 quando o estudante universitário Flávio Henrique Polaquini, 21 anos, morreu no Pronto-Socorro Central vítima de aneurisma. A morte, além de protestos, comprovou a precariedade das condições do PS Central naquela época.