A frase atribuída ao general De Gaulle - “O Brasil não é um país sério” - está por merecer um complemento: “E não faz a menor questão de provar o contrário”. O que nos leva, neste momento, a essa conclusão são os descaminhos a que está sendo submetida a rastreabilidade bovina em nosso País.
Incompreensivelmente, um recurso para qualificar o nosso produto e melhorar a gestão do nosso negócio está sendo tratado com tal descaso ou falta de competência que nos faz temer pelo pior: o descrédito do Brasil diante dos países importadores de carne e a conseqüente perda de mercados, com resultados desastrosos para toda a pecuária nacional.
Enganam-se profundamente os que pensam que os custos e os benefícios da rastreabilidade dizem respeito somente ao comércio exterior: um revés nas exportações será um desastre para o preço da carne também no mercado interno, uma vez que cada tonelada não exportada servirá para aumentar a oferta em um ambiente de consumo já retraído e com preços baixos.
Não se trata de alarmismo, mas sim de tomada de consciência da posição do Brasil no mercado internacional da carne: somos, hoje, o maior exportador do produto - e temos que agir de acordo com a dimensão da nossa importância no mercado mundial. Estamos, no entanto, fazendo o contrário. Lideramos as exportações de carne, mas agimos como se fôssemos uma República de Bananas.
O tamanho da nossa indignação - e, podemos garantir, de todos que vêem a rastreabilidade como uma ferramenta para o incremento da pecuária - é proporcional à pasmaceira em que se encontra o Sistema Brasileiro de Identificação Bovina e Bubalina (Sisbov).
Vamos, resumidamente, aos fatos. O Sisbov foi instituído em janeiro de 2002, estabelecendo que à partir de julho daquele ano os animais cuja carne seria exportada para a União Européia deveriam ser identificados e registrados na Base Nacional de Dados (BND) do Sistema, onde deveriam permanecer por um período mínimo de 40 dias. Essas providências, no entanto, começaram a vigorar somente um ano depois.
Em novembro de 2003 foi definido um calendário estabelecendo: a) quarentena para os animais destinados a todos os mercados (não somente à UE) a partir de 31/12 daquele ano; b) permanência de 90 dias na BND dos animais para exportação (todos os mercados) a partir de 31/05/2004; c) permanência de 180 dias a partir de 31/11/2004; e) permanência de 365 dias a partir de 31/05/2005; f) a partir de 31/05/2005, registro na BND de todos os animais nascidos no País.
Apesar dos naturais problemas de percurso, até maio de 2004 o Sisbov vinha se mostrando exeqüível. Naquele mês, mais de 4 milhões de animais foram registrados na BND, confirmando a adesão dos pecuaristas ao Sistema. A partir daí, no entanto, um tão poderoso quanto retrógrado lobby conseguiu jogar trevas sobre um caminho que se mostrava claro o suficiente para conduzir a rastreabilidade a seu destino natural de modernizar efetivamente a pecuária brasileira.
Mesmo declarando-se favorável à rastreabilidade, no que piamente acreditamos, infelizmente o ministro Roberto Rodrigues, se viu envolvido pela avalanche de opiniões contrárias, o que inclui deputados federais que se dizem representantes da agropecuária.
Um dos resultados do ‘excelente’ trabalho do lobby foi a suspensão do cronograma, de modo que continua em vigor a permanência de 40 dias na BND. Outro, foi o descrédito do Sistema. Um terceiro, está sendo a perpetuação da inércia, por meio da constituição de incontáveis “grupos de trabalho” com a função de apresentarem “propostas” para o Sisbov.
A situação, no entanto, chegou no limite. Mesmo que não tenha sido o causador da pasmaceira atual, chegou a hora de o Ministério da Agricultura marcar uma posição em relação ao sistema de rastreabilidade bovina no Brasil. Governar, nos ensinam os dicionários, significa controlar o rumo, dar direções.
Se produzirmos carne para o mercado, temos que ouvir o que o mercado está dizendo. E o mercado é claro: quer segurança alimentar, quer produtos com qualidade, quer garantias sobre o que compra. Vamos continuar fazendo ouvidos moucos para o mercado? Vamos continuar no faz de conta? Vamos continuar acreditando que o mercado se curvará a nós?
Os que pensam assim certamente ainda não perceberam que estamos no ano 2005, que o mundo está atento àquilo que contraria ou não atende aos requisitos de sustentabilidade e de vida saudável, que o mundo globalizado significa ausência de fronteiras - ou seja, estão todos vendo o que acontece no nosso quintal, a exemplo das missões de diversos países que nos têm visitado ultimamente para ver como são nossos pastos, currais e frigoríficos.
A exemplo do que confirma em entrevista ao Jornal dos Criadores, o diretor do frigorífico Independência, senhor Miguel Graziano Russo, todos os países importadores - e não somente os da União Européia - exigem hoje que a carne que compram seja de animais identificados. Em pouco tempo, as exigências serão maiores, de modo a não termos mais como fazer de conta. Ou teremos a rastreabilidade ou não teremos o mercado externo - isso sem contar que o mercado interno também deverá, mesmo que aos poucos, mudar suas exigências de consumo. Vamos esperar o quê para fazermos rastreabilidade com seriedade?
O autor, Luiz Alberto Moreira Ferreira, é presidente da Diretoria Executiva da ABC - Associação Brasileira de Criadores (http://www.abc-criadores.com.br)