Mais do que tirar a roupa em público, se desnudar de conceitos, pré-conceitos e barreiras psicológicas e sociais, vivendo em harmonia com as pessoas e a natureza. Essa é a filosofia do naturismo, também chamado de nudismo (leia mais abaixo), movimento que reúne cerca de 300 mil brasileiros, sendo 10% deles praticantes efetivos, segundo estimativa da Federação Brasileira de Naturismo (FBrN).
Existente há 17 anos, a organização coordena e controla as atividades naturistas no Brasil e é vinculada à Federação Internacional de Naturismo (FNI), fundada em 1953 e que congrega associações em mais de 30 países.
“O fato de ficar nu é apenas uma parte do naturismo. Ser naturista é conviver com a natureza e com seus semelhantes. É assumir viver como viemos ao mundo e respeitar as diferenças”, explica o engenheiro paulista José Mariano da Silva Júnior Nudista há 17 anos, ele é membro da FBrN e um dos diretores do Sampanat, primeiro clube naturista de São Paulo.
Atualmente, o nudismo é praticado em clubes exclusivos e praias oficialmente destinadas à prática, como a praia do Pinho, em Santa Catarina (SC). Há ainda o nudismo praticado dentro das residências dos adeptos, caso do administrador de empresas Waldemar Rodrigues da Motta.
Ele - que mora com a esposa e dois filhos, de 15 e 21 anos, em São Paulo - busca praticar o naturismo 24 horas por dia, exceto nos dias frios. “Temos uma maneira de pensar e uma política interna dentro de casa de não ter nenhum tipo de restrição à nudez. Ela é natural e nunca tivemos essa coisa de nos esconder”, diz. Há cerca de quatro anos, o administrador de empresas decidiu se integrar ao Sampanat e, recentemente, foi eleito vice-presidente da FBrN.
O naturismo também é adotado por um casal de profissionais liberais bauruenses, que preferiu não ser identificado. Casados há 20 anos, eles contam que na primeira viagem que fizeram juntos, foram conhecer uma praia nudista.
A partir daí, o casal resolveu aderir à filosofia e costuma praticar o nudismo em sua chácara. “A prática do naturismo, em geral, leva famílias inteiras a recantos em todo Brasil, com a maior naturalidade. Nos sentimos livres e podemos curtir a liberdade de não carregar a ‘máscara’ chamada roupa”, diz ele.
Conquistas
Embora ainda seja considerado polêmico por grande parte da sociedade, o naturismo está ganhando um ambiente cada vez mais receptivo no Brasil. “O nudismo, antes, era praticado por pessoas acima de 30 anos. Hoje existem famílias, adolescentes, crianças e idosos envolvidos no movimento”, aponta José Mariano.
Além disso, um projeto de lei em tramitação no Senado visa regulamentar o naturismo no Brasil como “forma de desenvolvimento da saúde física e mental das pessoas de qualquer idade”.
De autoria do deputado Fernando Gabeira (sem partido), a proposta foi apresentada em 1996 no Congresso Nacional e aprovada pela Câmara dos Deputados e pelos senadores nas comissões técnicas da Casa. Se for transformada em lei, será a primeira a normatizar o nudismo no País, regulamentando, entre outros aspectos, os locais onde a prática pode ser realizada.
“Hoje em dia no Brasil o naturismo está meio solto, ou seja, nós não temos uma legislação que diga algo a respeito. Por outro lado não temos nada que venha contra o naturismo”, aponta José Mariano. Legalmente, não existem normas específicas sobre o nudismo na Constituição Brasileira. Sua prática, porém, pode, em determinados casos, ser classificada como ato obsceno, de acordo com o Código Penal.
Normas
Apesar de ainda não estar previsto em lei, o naturismo conta com normas éticas apontadas pela FBrN, que possui cerca de 21 grupos, entre comunidades, clubes e resorts filiados.
Entre elas, não ter comportamento sexualmente ostensivo ou praticar atos de caráter sexual ou obsceno em áreas públicas; cometer violência física; portar ou utilizar drogas ilegais; fotografar, gravar ou filmar outros naturistas sem permissão; causar constrangimento pela prática de atitudes inadequadas.
O não-cumprimento das regras pode causar suspensão e até expulsão do grupo, explica José Mariano. “O naturismo não é um mar de rosas. Como toda sociedade, nós também temos pessoas com duplos interesses. Mas quando elas são identificadas, podem ser expulsas do grupo”, observa.