Política

Câmara ataca fim de prontos-socorros

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 5 min

A decisão da prefeitura de suspender temporariamente os atendimentos de urgência e emergência nos prontos-socorros Mary Dota e Ipiranga foi alvo de duras críticas por parte dos vereadores que não integram a base aliada do governo Tuga Angerami (PDT) na Câmara Municipal de Bauru. Eles utilizaram grande parte da sessão legislativa de ontem para comentar o assunto.

Os dois PSs passarão a funcionar como unidades básicas de saúde até que a administração municipal amenize a falta de médicos verificada em seu quadro de pessoal. A estimativa é contratar 75 profissionais por meio de concurso público. A data em que os atendimentos de urgência e emergência serão interrompidos ainda não foi divulgada.

Ao notar a presença de moradores do Núcleo Mary Dota na galeria do Poder Legislativo, o vereador Arildo de Lima Jr. (PP) foi o primeiro a questionar as medidas anunciadas pela prefeitura. “É com pesar que recebemos essa notícia, porque sabemos que os PSs são fundamentais para atender os casos de urgência e emergência”, destacou.

O parlamentar Benedito da Silva (PSDB), presidente da Comissão de Meio Ambiente, Higiene, Saúde e Previdência da Casa, também não poupou críticas. “Lamento o fechamento dos PSs. Essas unidades foram uma conquista popular e o prefeito disse durante a campanha eleitoral que iria reestruturá-las. Ele também se comprometeu a criar um PS no Núcleo Geisel”, observou.

O tucano anunciou que a comissão irá convocar a secretária municipal da Saúde, Tereza Faifer, para participar de audiência pública na Câmara. A reunião foi agendada para o dia 1 de junho, às 10h.

O vereador Marcelo Borges (PSDB) cobrou urgência nas contratações. “O prefeito poderia decretar estado de emergência para acelerar esse processo. Já estamos com cinco meses de governo e alguma coisa precisa ser feita”, declarou.

Borges aproveitou para destacar que a implantação da gestão plena de saúde foi uma das bandeiras de Tuga durante o processo eleitoral do último ano, mas que ela ainda não saiu do papel.

O parlamentar José Carlos Batata (PT) também se manifestou a respeito do tema. “As medidas emergenciais precisam ser tomadas nesse momento. Nós deveríamos estar discutindo a abertura de novas unidades de saúde na periferia, e não o fechamento dos PSs”, protestou.

Batata estará hoje pela manhã no PS do Mary Dota acompanhado por um grupo de vereadores. Eles pretendem analisar de perto a situação estrutural da unidade. O petista também quer visitar o PS Ipiranga nos próximos dias.

Em alguns momentos da sessão, os moradores que estavam na galeria chegaram a aplaudir os vereadores que criticaram as medidas anunciadas pela prefeitura.

Defesa

O líder do prefeito na Câmara, vereador Faria Neto (PDT), tentou convencer os colegas sobre a necessidade de suspender temporariamente o atendimento de urgência e emergência nos dois PSs. “A gestão anterior criou o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) com três equipes e deixou essas unidades defasadas”, argumentou.

Faria Neto afirmou, ainda, que a abertura de concurso não significa que o problema será solucionado de imediato. “No ano passado, o prefeito Nilson Costa fez dois concursos e não conseguiu preencher todas as vagas porque não houve interesse”, destacou.

A vereadora Majô Jandreice (PCdoB) disse que a falta de estrutura dos PSs descentralizados se arrasta desde a sua criação. “Foi uma ação provisória que se tornou definitiva”, comentou, lembrando que o município investe na área da saúde 26% do que arrecada.

Outro parlamentar ligado ao prefeito, Rodrigo Agostinho (PMDB), relatou que a prefeitura está preocupada em recuperar os PSs descentralizados para honrar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com o Ministério Público (MP) pela gestão anterior. “A Secretaria Municipal de Planejamento designou um arquiteto para trabalhar apenas nos projetos de reforma dos pronto-socorros”, observou.

O presidente da Associação Comunitária do Mary Dota, Paulo Ferreira, deixou a Câmara satisfeito com a repercussão que o caso gerou. “Os governantes precisam entender que esse tipo de decisão não pode ser tomada de cima para baixo. Quando a população não é consultada, fica complicado”, opinou.

Quando a mudança entrar em vigor, a intenção da prefeitura é manter ambulâncias nos PSs Mary Dota e Vila Ipiranga para transportar os pacientes até as unidades Centro, Bela Vista e Infantil, que continuarão atendendo emergências 24 horas.

Procurados pela reportagem, o prefeito Tuga Angerami e a secretária Tereza Faifer não deram retorno aos pedidos de entrevista feitos por meio da assessoria de imprensa.

____________________

Justiça

A precariedade da saúde pública municipal deve ressoar na Justiça de Bauru por meio do clamor de uma mãe. Há uma semana, Ana Maria Lellis perdeu o filho de 26 anos, em decorrência da leishmaniose. Como o caso de Fernando Lellis Krupelis levou dois anos para ser diagnosticado e pode nem ser incluído nas estatísticas de mortes provocadas pela doença, a situação será levada ao Fórum de Bauru.

“Vou procurar o Ministério Público na segunda-feira. Quero entrar na Justiça para contestar o laudo da morte”, diz Ana Maria, que acompanhou ontem a sessão Legislativa. Segundo ela, no atestado de óbito não consta a doença como responsável direta pela morte do rapaz, mas pneumonia e infecção generalizada.

Por essa razão, a inclusão do nome dele nas estatísticas de mortes provocadas por leishmaniose está sendo analisada em conjunto pela Secretaria de Estado da Saúde e Secretaria Municipal de Saúde. “Isso pesa para o município e o Estado, por isso não colocaram. Se a saúde tivesse o mínimo de qualidade, não chegaríamos neste ponto. Pode ser que outras mortes tenham ocorrido sem que entrassem para as estatísticas”, diz a mãe.

Desde 2003 com os sintomas, a leishmaniose só foi diagnosticada em Fernando um mês antes dele morrer. “Não sei se foi descaso ou distração do médico (que não teria solicitado o exame para confirmar leishmaniose). Mas alguém vai ter de responder pelo que aconteceu. Pretendo também pedir indenização porque destruíram a vida dele e a nossa. Enquanto ele ficou doente, não pôde trabalhar. Sobrevivemos com a ajuda de amigos”, conclui Ana Maria.

Luciana La Fortezza

Comentários

Comentários