Tribuna do Leitor

O Paiva não deveria ter fechado


| Tempo de leitura: 2 min

Eu, Carlos Manuel Cristóvão, médico psiquiatra, vim para Bauru devido à enorme falta de psiquiatras nesta cidade, de acordo com dados fornecidos por representantes de laboratórios. A cidade de Presidente Prudente tem 45 psiquiatras para uma população de quase 200 mil habitantes, enquanto Bauru tinha 14 para uma população de 330 mil habitantes. Segundo outro representante, a DIR da região de Bauru tem 1 milhão de habitantes e, somada as populações de algumas outras cidades ao sul da nossa, que juntas tem menos psiquiatras que a cidade de Marília, sozinha. Recomenda-se, pelas diretrizes da Organização Mundial de Saúde (OMS), um psiquiatra para cada 10 mil habitantes, ou seja, há um vazio na área de psiquiatria no Estado, segundo os representantes.

De acordo com dados da epidemiolgia geral e clínica, se aplicados à população dessa cidade, temos 1% de transtornos psicóticos, ou seja, 3.300 bauruenses, dos quais 30% podem evoluir para quadros graves residuais, necessitando de hospitalizações mais freqüentes. A incidências de casos novos que surgem é de um em cada 10 mil habitantes. Isto é, 33 casos novos de esquizofrenia por ano.

Outros transtornos também têm taxas de prevalência e incidência bem estabelecidas nas populações, tais como o transtorno de humor bipolar, sendo de 1% e com 10% de indivíduos refratrários aos diversos tratamentos farmacológicos, isto é, 330 indivíduos precisando de atenção e apoio hospitalar constante.

Temos 2.640 indivíduos com transtorno obsessivo-compulsivo (0,8%), sendo a maioria tratável ambulatorialmente, mas com uma pequena porcentagem precisando de apoio hospitalar. A depressão atinge mais pessoas, por volta de 5%. São 16.500 bauruenses, com uma população refratária aos tratamentos farmacológicos de 10%, isto é, 1.650 desse grupo com maior número de hospitalizações sendo necessárias durante a evolução desse transtorno.

O objetivo da desospitalização estabelecido pela OMS é de um limite de 1 leito para mil habitantes, logo, Bauru tem que ter, no mínimo, 330 leitos. Se tiver menos, será uma injustiça com a demanda esperada para sua população. O hospital psiquiátrico do Paiva, único dessa cidade, tem 250 leitos, que serão fechados. Serão abertos 30 leitos no Manuel de Abreu. Faltarão 300 leitos necessários à demanda bauruense.

Concluindo: temos uma política de saúde mental equivocada. O fechamento dessa instituição foi baseado mais em problemas pessoais e ideológicos dos profissionais da comunidade de saúde mental dessa cidade. A população do município merece mais respeito. E que seja feita uma política de saúde mental baseada na racionalidade técnica e científica psiquiátrica (que já provou sua eficácia por nossos especialistas) e à altura das necessidades e demandas da população bauruense.

Carlos Manuel Cristóvão - médico psiquiatra - CRM 88.611 - RG 11.415.568 - Lençóis Paulista

Comentários

Comentários