Em sua obra máxima, a Summa Theologica, Thomas de Aquino comete o mesmo erro de Aristóteles (A Política) ao considerar que não há possibilidade de pecados contra os animais não-humanos ou contra o mundo natural. Só há espaço para pecados contra Deus, contra nós mesmos e, ou contra nosso próximo. Esse pensamento dominou a corrente majoritária do cristianismo durante dezoito séculos e criou uma tradição no mundo ocidental - conta o filósofo Peter Singer. O mundo natural existe para benefício dos seres humanos. Deus concedeu aos seres humanos o domínio sobre o mundo natural, e a Deus não importa como o tratamos. Os seres humanos são os únicos membros moralmente importantes deste mundo. A própria natureza carece de valor intrínseco, e a destruição das plantas e dos animais não pode ser um pecado.
Essa tosca tradição talvez explique porque no Brasil foram devastados 26 mil quilômetros quadrados de florestas nativas no período 2004/2005. Pior é que esse número cresce ano a ano e agrava a paranóia mundial sobre a internacionalização da Amazônia. Provoca retaliações econômicas danosas ao estágio de crescimento econômico brasileiro.
Durante o regime militar estive na Amazônia acompanhando projetos agropecuários que consistiam na venda de terras virgens a empresários que ainda gozavam de estímulos fiscais para derrubar as árvores, vender a madeira-de-lei e pôr fogo no resto para o plantio de capim-colonião. Hoje, o próprio governador do Mato Grosso vangloria-se de ser “o rei da soja” à custa dessa ampliação da fronteira agrícola com o sacrifício da floresta tropical. “A soja sustenta o Brasil porque é vendida lá fora e é paga com moeda forte” - justifica.
Vivemos ainda da idéia de que a mata nativa é uma terra devoluta, uma área inútil que necessita ser derrubada para tornar-se produtiva e valiosa. Esquecemos que, sem a vegetação de porte, as mudanças climáticas desertificarão a terra tornando impossível as lavouras de grãos. Não bastasse esse argumento, uma floresta virgem é o produto de todos os milhões de anos que se passaram desde o começo de nosso planeta. Os ganhos decorrentes do corte da floresta - geração de empregos, lucros com negócios, dividendos de exportação - são ganhos de curto prazo.
Dia desses fui convidado pelo amigo José Cabral a visitar uma mata nativa aqui em Lençóis. Resquício da Mata-atlântica conservada de pé graças à consciência ambientalista dos engenheiros da Duratex. Embora tenha uma área respeitável (600 hectares) e a empresa necessite plantar eucaliptos, matéria-prima da sua indústria, preferiu arcar com o “prejuízo” da sua preservação. Nesse local existem perobas de 650 anos. Muitos antes de Cabral ter achado o Brasil elas ali já estavam. É admirável que ainda se encontre vestígios da Mata-atlântica aqui mesmo, em Bauru, no câmpus da Unesp.
Comoveu saber dos esforços de funcionários para evitar a morte de uma perobeira multi-secular. A árvore ameaçava tombar com o solapamento das suas raízes. Técnicos a amarraram com cabos de aço acolchoados, para não machucá-la. Durante anos foram tracionando os cabos, a milímetros por vez, até trazê-la a uma inclinação segura. Depois, levaram toneladas de terra de outro lugar, andando pela trilha com os sacos nas costas, a fim de aterrar as raízes descobertas. Quanto ganharam nessa operação? A satisfação de preservar uma árvore de imensa beleza e que faz parte de um ecossistema que é um reservatório de conhecimento científico ainda a ser adquirido.
O crescimento econômico baseado na exploração de recursos não-renováveis pode ser visto como algo que traz lucros à geração presente e, possivelmente, a uma ou duas gerações além desta. Mas a um preço que terá quer ser pago por todas as gerações posteriores.
“Finalmente - para terminar com o próprio Singer -, se preservarmos intactas as áreas de matas que existem agora, as futuras gerações pelo menos poderão optar por levantar-se do computador e sair para ver o mundo que não foi criado pelos seres humanos”. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)